Jornal Espaço Aberto

Página Inicial

Colunas Impressas » De Olho na Política

Fábrica de chocolate – a tortura na visão dos torturadores

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 06/11/2011 Colunista: Carlos Pinto

 

“Quando um homem se avilta,
aviltando um outro homem,
todos nós somos esses
dois homens.”
(Ruy Guerra)
 
 
 
“Fábrica de Chocolate” foi encenada pela primeira vez em 1979, em montagem produzida por Ruth Escobar, com direção de Ruy Guerra, tornando-se um dos textos do chamado teatro da resistência. O autor Mario Prata, que anteriormente já havia brindado o público com outro texto de qualidade - Cordão Umbilical - também é responsável por um grande sucesso na televisão, a novela “Estúpido Cupido”.
 
Ao adentrar o terreno da dramaturgia engajada, Mario Prata nos brinda com um trabalho de qualidade, onde aborda a questão da tortura no Brasil, pela visão dos torturadores, através de relatos de um psicólogo que fazia o atendimento de alguns desses torturadores.
 
Para Fábio Nougueira, que pela segunda vez dirige uma montagem do texto em questão, e para o grupo Theatro 2 Produções, trata-se de um desafio com boa dose de coragem. A tortura nos cárceres dos órgãos de segurança pública em passado recente deste país, ainda é um tema cujas discussões se perdem entre os emaranhados da política nacional.
 
No momento em que a anistia virou um balcão de negócios para obtenção dos chamados reparos morais, onde determinado escritório de advocacia encheu seus cofres obtendo vultosas fortunas para anistiados, muitos com justa razão, mas muitos também de razões duvidosas, desvendar a ação dos torturadores passou para um segundo plano em matéria de vontade política ou prioridade.
 
Uma nova montagem de “Fábrica de Chocolate” representa um desafio para todos nós. Obriga-nos mais uma vez a olhar de frente para este tema que sempre representou ser um tabu, um enigma, principalmente para as gerações que escaparam destes tempos terríveis. Sob o olhar da dramaturgia, na medida em que Mario Prata se recusa a uma emoção barata com relação às vitimas, decidiu-se pelo aprofundamento na procura do entendimento dos valores e dos aspectos morais e familiares dos que se ocuparam em exercer uma função degradante.
 
Os torturadores não tinham nomes, mas codinomes, e hoje muitos ocupam postos de destaque em setores governamentais. Sem saber, você pode ser amigo intimo de um deles, camuflados que estão no dia a dia, compartilhando solenidades e festas de aniversário. Neste particular o diretor Fabio Nougueira, optou por reformular sua montagem anterior, concebendo neste novo trabalho uma tentativa de materializar a forma como os torturados, viam seus torturadores nos momentos em que eram violentados em seus direitos como seres humanos.
 
A estréia do espetáculo ocorreu no último dia 29 de outubro, no Teatro Municipal de Presidente Prudente, de onde o Theatro 2 Produções é originário. “Fábrica de Chocolate” relembra fatos de nossa história, de forma que não caiam no esquecimento. Não existe na montagem a idéia oca de chocar, mas sim, proporcionar momentos de reflexão, de análise dessa questão para que nunca mais ocorra entre nós. O espetáculo poderá ser visto em Santos, no próximo dia 12 de novembro, no Teatro Guarany. Posteriormente deverá visitar outras cidades do interior paulista, entre as quais São Carlos, Franca, São José do Rio Preto e Marília.