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Os pequenos tranquilos

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 05/12/2011 Colunista: Carlos Pinto

                                                                                                                           (Em memória de Álvaro Bandarra)

As roseiras estavam começando a florir. Em sua habitual labuta diária, a mãe principiava o café da manhã.

Em seu quarto Jok estava em tremenda atividade. Seriam cinco e trinta se muito, e a mãe estranhou aquela agitação no quarto dos seus meninos, mas continuou o café. Mas era muito cedo prás suas crianças estarem acordadas.

Caminhou até a porta do quarto e ouviu a conversa deles. O Jok dizia prá Mark que ele devia tomar muito cuidado. Mas que diabo de cuidado seria esse?  Será que Mark havia se metido em alguma enrascada? Mas continuou a ouvir. Mark começava a argumentar que fugir de nada adiantaria, e a mãe cada vez mais, ficava curiosa em saber o que seus meninos haviam aprontado.

Desta vez era o Jok que dizia prá Mark esquecer sempre em casa as suas idéias e sonhos. Que a luta de nada mais adiantava, que estava tudo perdido. Aí a mãe se preocupou deveras. Já havia lido alguma coisa sobre atentados e assaltos que meninos estudantes andavam fazendo, como bandeira de luta política. Aí ela se apavorou.

Será que seus meninos andavam ligados a isso? Não seria possível tal coisa. Jok só pensava em estudar. Passava horas e horas grudado nos livros, e o Mark, esse então não ligava prá coisa nenhuma. Mas bem que de um tempo para cá, os dois andavam muito esquisitos mesmo. Só conversavam em voz baixa, coisas que ela não conseguia entender.

Lembrava-se agora de umas discussões deles com um coleguinha, sobre um tal Vietnã, que estava em guerra com os Estados Unidos. Falavam muito de liberdade de expressão, coisa que realmente ela nunca ouvira e nem sabia o que queria dizer. Tudo isso veio à sua lembrança em segundos, mas a conversa lá dentro continuava. Jok, cada vez mais seguro de si, falava de uns tempos que virão e tudo mudará, e que as pessoas como eles então, teriam paz e tranqüilidade.

A velha mãe cada vez entendia menos. Na cozinha a água fervia a espera do pó, e o leiteiro de há muito havia deixado na soleira da porta, o leite da casa. Cada vez mais intrigada ouviu quando o Jok falava pro irmão que já havia queimado aqueles livros, e que agora podia então falar com ela. Que já podia se despedir.

O Jok estava indo embora, gente... E ela não sabia de nada. Ele nunca havia dito nada, e agora estava indo embora. Não agüentou mais e abriu a porta. Os dois olharam meio assustados, mas o Jok logo recobrou sua confiança e contou tudo a ela.

Realmente ele sonhava com dias melhores. Toda a sua gloria seria lutar por conquistas sociais para a humanidade. Falou das ideologias falidas, da corrupção reinante no mundo, das falsas virtudes. Falou do ensino superado, dos professores retrógrados e mal preparados, da cultura que é negada ao povo. Falou um montão de coisas que ela não entendeu.

A única coisa que ela entendia é que ele estava indo embora, e isso ela não compreendia. Começou a chorar e se agarrou nele. Pediu pro Mark ajudar a segurar o irmão. Agora não dava mais, falava Mark. Ele precisa ir prá continuar lutando. A gente diz que ele foi estudar fora, em qualquer lugar. Ninguém precisa saber de nada. Mas  saber o que? perguntava a mãe.

Aí Jok se abriu. Realmente ele atuava no movimento clandestino e a polícia estava desconfiada dele. Então para sua segurança ele precisava sumir uns tempos. Talvez voltasse, talvez não voltasse mais. A mãe pediu prá ele ficar. Argumentou que iria à polícia pedir pela liberdade deles lutarem por seus sonhos. Aí os dois começaram a rir da inocência dela.

O Jok pediu prá ela não se alterar que um dia tudo voltaria ao normal, que Mark ficaria para cuidar dela. Mas a velha mãe não queria saber disso. Mark veio para a cozinha e volta pedindo a ela que termine o café, pois eles iriam em seguida. Mark levaria o Jok até Avalovara e de lá ele seguiria para qualquer lugar.

Foram os três para a cozinha. Chorando a mãe prepara o café enquanto alisa os cabelos de Jok. Ouvem-se passos ao lado da casa. Jok estremece e se prepara como um tigre. Rapidamente em suas mãos surge uma arma. A mãe fica parada, atônita. A campainha toca e a polícia grita. Pede prá ele sair e se entregar. Ele argumenta que só morto sairá. Que é um homem livre e quer continuar assim.

Os tiros se iniciam, e após segundos o Jok está estirado no quintal. Ao lado, as roseiras continuam florindo. Na cozinha, a mãe está pálida, abobada. A casa é revirada, mas nada se encontra. Seu filho Mark é levado preso, mesmo protestando inocência. Aí ela se agita e berra. Nisso seu marido a empurra e lhe pede que o deixe dormir sossegado.

Ela levanta apavorada, vai ao quarto dos meninos e abre a porta. Os seus dois anjos estão lá, quietinhos, dormindo, tranquilos. Ela então se liga na coisa.  Havia sonhado, mas de onde tirara semelhante sonho?  Aí então se lembrou. Havia lido uns jornais que falavam de um garoto, mais ou menos da idade do Jok, que morre num  acidente  quando era perseguido pela polícia. Ela se lembrava que quando leu a noticia, ficara um tempão analisando como estaria se sentindo a mãe do garoto, que era considerado um gênio pelos colegas de aula. Tal como seu filho Jok.

Voltou prá cama. Não dormiu mais. Ficou pensando se haviam outras mães pensando como ela, sonhando como ela, morrendo aos poucos, como ela. Novo Mundo, primavera de 1974.