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Bandarra: em nome da justiça e da verdade

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 12/12/2011 Colunista: Carlos Pinto

“Se todos os homens soubessem

o que os outros dizem a seu respeito,

não haveriam quatro amigos no mundo.”

(Pascal)

A revista Época, em duas edições, especulou sobre “documentos” que diz ter obtido junto a antigos agentes do CENIMAR, matérias que levaram o titulo de “Os Infiltrados”.

Não me cabe analisar o teor do veiculado, pois não vi a tal documentação. Mas me cabe fazer um reparo sobre a conduta de Álvaro Bandarra, meu amigo e companheiro no governo do Prefeito Oswaldo Justo.

Conheci Bandarra como dirigente do Bloco Carnavalesco Chineses do Mercado. Junto com Bernardo Starosta e outros comerciantes da Vila Nova patrocinavam uma das melhores agremiações carnavalescas já surgidas em Santos.

Conheci Bandarra como proprietário da Livraria Iporanga e militante do PCB. Reuni-me várias vezes com ele nos altos da livraria, junto com outros companheiros, entre os quais Tanah Correa.

Considero uma infâmia as aleivosias sobre ele publicadas, baseadas em uma anotação a tinta em sua ficha do CENIMAR. Se ele foi cooptado pelo referido órgão em outubro de 1968, como se explica a sua prisão em 1975, após a morte de Vladimir Herzog, quando houve verdadeira caça aos dirigentes do PCB em todo o país?

Naquela oportunidade me lembro que além dele, em Santos, foram presos o advogado Marcos Milani e o vereador Moacir de Oliveira, entre outros. Encontrei-me com Moacir logo após sua soltura e ele me confessou que apanharam muito, que batiam neles com um caibro, e que não sabia se o Bandarra ia aguentar.

A verdade é que tanto Álvaro Bandarra quanto Marcos Milani, já falecidos, sofreram muito em função das sequelas da tortura, e em consequência delas acabaram partindo para outro plano.

Eu e Tanah dividíamos um apartamento na Avenida Brigadeiro Luis Antonio. Salvo erro de memória, em uma madrugada de 1974 fomos acordados lá pelas quatro horas. Era o Givaldo Siqueira nos informando que o Marco Antonio Coelho, que também era jornalista, havia caído, ou seja: entrou em cana. Com isso nos passou a responsabilidade pela guarda e segurança de Salomão Malina, Secretário Geral do PCB e uma das figuras mais procuradas pelos órgãos de repressão do sistema.

Alugamos um apartamento em um prédio da Rua Caio Prado, em cujo andar térreo funcionava o Restaurante Lisboa Antiga. Ali mantivemos o conhecido “Capitão Gancho”, até que em outra madrugada fomos avisados que haviam estourado a gráfica do partido em um município da Baixada Fluminense.

A ordem era retirar o Malina do local onde estava e levá-lo para outro lugar em segurança. Enquanto eu “limpava” o apartamento da Caio Prado, o Tanah trouxe o Salomão para uma pensão na Rua Euclides da Cunha, em Santos, que era de propriedade de sua mãe. Ali Salomão ficou por um bom tempo.

Se realmente o Bandarra e o Givaldo, eram ligados aos órgãos da repressão, cabe aqui uma pergunta: porque eu, o Tanah e o Salomão Malina jamais fomos presos? Onde está a verdade dos fatos? A quem servem as matérias da revista Época, num momento em que existe toda uma campanha pela abertura dos documentos do período do regime militar?

Quem souber as respostas que abra o jogo. De minha parte quero apenas limpar a lama que tal matéria atirou sobre a honra de homens que dedicaram sua vida a lutar por seus sonhos e ideais. O resto, um dia, a historia se encarregará de colocar nos devidos lugares.