Jornal Espaço Aberto

Página Inicial

Colunas Impressas » De Olho na Política

Os oitenta anos de Sérgio Ricardo

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 02/02/2012 Colunista: Carlos Pinto

 “Minha dor é como a lenha

Numa Caldeira

E a saudade um trem de carga

Sem passageira.”

(Sérgio Ricardo)

Conheci Sérgio Ricardo nas passeatas que se realizavam em São Paulo, contra a revolução de 64 e em favor da volta à democracia. Vários artistas participavam desses cortejos, entre os quais Cacilda Becker e Juca de Oliveira, alem de outros artistas, jornalistas, críticos teatrais e estudantes. Sergio estava sempre na primeira fila dessas passeatas, que lotavam a Avenida São João e ruas e avenidas adjacentes.

Nascido em Marília em junho de 1932, completará seus oitenta anos no dia 18 desse mês. Seu nome real é João Lufti, descendente de uma família libanesa, que aos oito anos o matriculou no Conservatório Musical de Marília para que estudasse piano e teoria musical. Posteriormente transferiu-se para São Vicente onde exerceu a função de locutor na Rádio Cultura, da família Mansur, de traços familiares com a sua.

Em 1952 muda para o Rio de Janeiro onde vai trabalhar como técnico de som na Rádio Vera Cruz e pianista, substituindo nada mais nada menos que Tom Jobim, em casas noturnas. Entrosado na Cidade Maravilhosa logo se uniu ao primeiro núcleo de compositores de um novo movimento musical: a bossa nova. No começo dos anos 60 lança seus primeiros LPs: “Não Gosto Mais de Mim” e “A Bossa Romântica de Sergio Ricardo”.

Sua participação em um dos festivais de música popular brasileira organizado pela TV Record, marcou um dois mais antológicos momentos da MPB. Vaiado ao cantar sua composição “Beto Bom de Bola”, perde a compostura, quebra o violão e o atira contra o público. Sua figura fica marcada a partir desse momento. No entanto, contando com o apoio e incentivo de Carlos Lyra, passa a estudar e pesquisar os problemas sócio-políticos do país, que passa a retratar em suas composições, uma das quais originou a trilha sonora do filme de Glauber Rocha, “Deus e o Diabo na Terra do Sol.”

Sérgio Ricardo nasceu e cresceu em um ambiente musical, pois enquanto sua mãe cantava, seu pai tocava alaúde. No Rio estudou no Conservatório Nacional de Música, e foi aluno dos maestros Guerra Peixe e Ruffo Herrera. Alem do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, Sergio compôs outras trilhas sonoras, não só para filmes de Glauber, como também para outros cineastas entre os quais Nelson Pereira dos Santos, incluindo-se aqui a obra prima de Glauber, “Terra em Transe”.

Com uma extensa lista de composições, podemos citar “Ponto de Partida”, “O Sertão vai Virar Mar”, “Canto Vadio”, “O Nosso Olhar” e “Mundo Velho Sem Porteira”, como obras primas nessa extensa listagem. É de sua autoria um dos clássicos da MPB e musica precursora da bossa nova, que é “Tereza da Praia”, que Lúcio Alves e Dick Farney imortalizaram no cancioneiro popular.

Sérgio Ricardo pode ser considerado um artista de mil artes. Além de compositor e cantor, é pianista, cineasta, ator, artista plástico, entre outras atividades. Uma de suas primeiras composições “Buquê de Isabel” recebeu em 1958 uma belíssima gravação na voz de Maysa Matarazzo. Por tudo que representa nas artes do país, notadamente por sua marcante posição política, Sergio Ricardo merece todas as homenagens que estão sendo preparadas para comemorar seus oitenta anos de vida bem vivida. Parabéns”!