Jornal Espaço Aberto

Página Inicial

Colunas Impressas » De Olho na Política

Os cegos

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 25/03/2012 Colunista: Carlos Pinto

“Não creio ser um homem que saiba.

Tenho sido sempre um homem que busca,

mas já agora não mais nas estrelas e nos livros:

Começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue

murmura em mim.”

(Hermann Hesse)

Nascido na Bélgica em 1898, Michel de Ghelderode tornou-se um dramaturgo de fama internacional principalmente por seu texto “O Escurial”, e também, por outro texto muito interessante que é “Os Cegos”, onde aflora a moralidade do autor, inspirada em um quadro do artista plástico Pieter Brueghel. Essa obra se constitui em uma reflexão sobre a cegueira da alma humana, e trata da peregrinação de três cegos a cidade santa de Roma, onde esperam recuperar a visão através de um milagre.

Exaustos pela caminhada são surpreendidos por Lampido, um individuo de um olho só que mora no topo de uma árvore. Após observar os três cegos durante semanas naquele vai e vem, avisa-os que eles ainda continuam em Brabant, e que os sinos que ouvem tocando são os de Bruxelas. Oferece sua ajuda para guiá-los, mas os cegos se recusam a acreditar nele e retomam seu caminho que fatalmente os conduz à morte, vitimas da própria cegueira.

Realmente os mistérios que rondam a alma humana são insondáveis, e por vezes não encontram qualquer explicação, senão a consecução dos próprios interesses. É o que se observa em nossas cidades, com a proximidade do período eleitoral. Se um candidato te oferece mil vantagens, promessas de imensos potes de ouro ou malas de conteúdo volumoso além do horizonte, e você se deixa levar ao sabor dessas promessas, acaba por virar personagem de Ghelderode e se arrisca a terminar como vítima da cegueira de sua alma.

Essa cegueira atinge também alguns setores da comunicação, onde o que vale é a versão de quem apóiam. A verdade é apenas um detalhe, e assim se omite da opinião pública o que ela precisa saber, ao tempo em que creditam a quem nada faz aquilo que outros pensaram e construíram. E com tais atitudes acham que vão construir uma nação mais justa, soberana, onde os direitos serão iguais e a justiça social será respeitada. E enquanto uns mentem de um lado, outros correm ao balcão de negócios para comprar quem anda a venda e os interesses do povo chafurdam na lama desse compra e vende. Mistérios da alma humana, que Gil Vicente retratou em seu Auto da Alma e que Bakhunin tão bem descreveu em um dos seus escritos.

No caminho da anti-moralidade, os pretendentes ao trono persistem na ideia de que o povo é tonto, que nada será desvendado, e que a trama escrita por Ghelderode não passa de um simples texto teatral. Pode ser que do alto de uma das árvores da cidade surja um Lampido, com dois olhos e argumentos mais fortes, que ilumine com a clareza da verdade o caminho a ser seguido.