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A Questão da ética ou a ética em Questão?

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 29/01/2011 Colunista: Alexandre Martins Joca

 

 

Por que da abordagem educativa acerca da sexualidade, especialmente da diversidade sexual, ao que nos parece, ainda, se mantém a margem das práticas educativas nos espaços escolares?

 
Muitas seriam as alternativas de respostas a esta indagação, o que não quer dizer que haja respostas exatas. Em minha pesquisa de mestrado “DIVERSIDADE SEXUAL NA ESCOLA: Um “problema” posto à mesa”, aponto algumas questões que considero relevantes a esta questão.
 
No entanto, diante do limitado espaçoo deste texto, gostaria de refletir sobre o caráter moral do ensino e a prática docente sobre a educação sexual na escola, fatores importantes na abordagem sobre a sexualidade na escola. 
 
Algumas implicações sócio-políticas e pedagógicas da formação docente, no tocante à sexualidade, nos fornecem importantes elementos para a compreensão da fragilidade demonstrada por educadores/as quando diante de questões relacionadas à sexualidade, especialmente, aos saberes sobre a diversidade de orientação sexual e de identidade de gênero.
 
Quando nos reportamos aos saberes sobre o sexual, os saberes hegemônicos propagados sobre as relações de gênero e orientações sexuais adquiridos nos espaços de formação e atuação docentes, parecem entrar em conflito com a perspectiva do enfrentamento ao sexismo e à homofobia nos espaços escolares.
Estudiosos/pesquisadores têm procurado caracterizar os saberes profissionais, identificando-os como saberes temporais, plurais, heterogêneos, de unidade pragmática, personalizados e situados, destacando, também, seu aspecto humano, uma vez que têm como objeto de trabalho o ser humano.
 
Desse modo, têm-se compreendido os saberes dos professores como saberes sociais, no entanto, constituídos de aspectos sociais e individuais, sendo individual em virtude de sua dependência do “saber fazer” do educador, e social por estar relacionado a uma situação de coletividade, ambos, vivenciados na prática cotidiana do trabalho docente. 
 
Dessa feita, o desafio enfrentado pelo/a educador/a frente à perspectiva de uma prática educativa de enfrentamento à homofobia está no confronto entre os saberes adquiridos em seus diversos espaços de formação e os saberes correspondentes à perspectiva de reconhecimento e defesa da diversidade sexual.
 
Assim, qual seria a “boa prática” e o “bom educador” quando tratamos da abordagem educativa sobre a sexualidade e a diversidade sexual?
Nesse sentido, a prática educativa entendida como atividade desenvolvida por agentes pessoais – os/as educadores/as – em interação com outros sujeitos – os/as educandos/as - ocupando e dando conteúdo à experiência de ensinar e de educar, apresenta um caráter individual da ação educativa por se tratar de ações dos sujeitos e suas subjetividades, características da condição humana e o caráter social e cultural, corresponde, ao envolvimento desses sujeitos com o contexto em que estão inseridos no exercício de tal prática, atribuindo a esta uma dimensão pessoal e social.
 
Um aspecto importante da ação educativa é compreendê-la enquanto um assunto moral, haja vista o entendimento do ensino como um problema moral, guiado por motivos relacionados a valores, nos quais as ações, quando diante dos dilemas, de acordo com a autonomia a ela permitida, optam por caminhos e trilhas que envolvem valores éticos, culturais e sociais, portanto, de caráter moral.
 
Para Sacristán (1999), a neutralidade ética na educação ou o relativismo aquiescente são, pois, atitudes radicalmente impossíveis, que ocultam as opções que sempre se tomam. Ressalta ainda que “O caráter moral inerente ao significado da ação extrai para o ensino a condição de ter de apoiar-se em processos de reflexão sobre o valor ético das ações que a compõem. (...) Mas, diante de tudo e antes de mais nada, a reflexão é uma exigência para a explicitação perante si mesmo – e perante os demais, se necessário – dos motivos que orientam a ação, para que sejam contrastados com as normas de comportamento aceitável” (Sacristán, 1999, p. 45).
 
Desse modo, a ação educativa passa pelo crivo da aceitação social, do que se espera e estabelece como conduta da educação e dos/as educadores/as, o que a condiciona aos valores morais aceitáveis socialmente para que essa seja uma “boa prática”, e seu agente um “bom educador”.
 
Penso que uma alternativa, talvez seja duvidar da ética que vem conduzindo nossas ações e práticas educativas.
 
 

Alexandre Martins Joca