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A crueldade do mundo homossexual masculino

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 22/10/2012 Colunista: Alexandre Martins Joca

Um amigo chamou-me a atenção para um fato: afinal, nós nos comportamos ou não como os heterossexuais no quesito crueldade?

A luta ferrenha para a sobrevivência, as guerras e a globalização, a miséria, fome e as questões econômicas e sociais graves levaram o mundo a um estado constante de violência. Mas não é bem dessa violência que eu falo. Falo da outra, interna, nossa, mais cotidiana. Como tem sido o seu dia-a-dia?

Na ânsia de penetrarmos de vez na sociedade heterossexista que aí está e deixarmos de lado as décadas de marginalidade que cerca a homossexualidade, penso que estamos também – e infelizmente –“comprando” comportamentos da cultura heterossexual que na verdade não queremos ter. Ou deveríamos não querer... Vamos ingressar nessa sociedade, mas não importa a que preço.

Vamos então, juntos, a uma boate gay. Qualquer uma. Música, muito dance e muito drink, olhadas e paqueras que tanto bem fazem ao nosso ego.  Mas, infelizmente, não é apenas isso o que acontece. Começando que, se você não usa o uniforme oficial, ou seja, roupas de grife e da moda, já pode ser considerado uma carta fora do baralho e não será considerado como um colega ou um eventual parceiro. 

Passado nessa fase, vamos à seguinte: você é forte, malhado, “sarado”? O termo “sarado” já é carregado de preconceitos e significados, afinal,  passa a idéia que todo o corpo que não for malhado seria o quê? Doente? Doente é o antônimo de sarado... Ou seja, a nossa aquisição da sociedade heterossexual começa já aí, na ditadura da estética e da juventude eterna. Tem coisa mais cruel que isso? Cruel principalmente por ser uma mentira, uma mentira tão cultivada, cultivada com tanto afinco.  Mais dia ou menos dia, todos,  iremos envelhecer.

 Portanto, como podemos cobrar do outro um fato que é natural, que não dá para ir contra? Alguém mais velho pode ser considerado inferior? Mas você é jovem, ainda não chegou aos 28, faz diariamente três horas de academia e escapou de mais essa. Esteja então preparado para a próxima, uma das mais doloridas: você é afeminado? O mais correto seria perguntar: você é MAIS afeminado que eu? Se for, tô fora...

 Pois é, julgamos o nosso próximo pela carga de feminilidade que ele carrega. Num mundo que valoriza o homem, o macho, a masculinidade, a virilidade, o tamanho do pênis, ser ou não feminino deixa de ser apenas um jeito de alguém para ser uma qualidade – ou melhor, um defeito – desse alguém. Ok, você é viril. Ou até sabe disfarçar a sua feminilidade e deixá-la vir à tona apenas na solidão do seu quarto. Portanto, livrou a cara nessa também.

Aí, a música aumenta e começam os shows da noite.  Vem a Drag da moda, no palco, sempre muito aplaudida. Ela está atenta na platéia, procurando uma ou várias vítimas. E vai encontrar: quanto mais frágil, mais inocente ou mais simples, mais tímido for esse menino, mais útil ele será às crueldades que a artista irá aplicar: humilhações, gozações várias, exposição pública de possíveis defeitos e etc. etc. etc. Quanto mais sarcástica e cruel essa drag for, mais aplaudida será, afinal a vítima é o outro e não eu.

Como não sou eu, não sinto na minha pele o que fazem com ele. Não me identifico com ele. Até acho legal que existam sempre as vítimas e os carrascos, desde que eu nunca seja a vítima... E como eu quero desesperadamente fazer parte daquele grupo, eu aplaudo também. Esse é o nosso show, o show visto nas boates gays. Em que diferimos dos nazistas, quando eles pegavam qualquer judeu para humilhar publicamente?  Afinal, não sou judeu... Lembrei-me até de uma triste e viperina figura que fazia show na boate Nostro Mundo (primeira casa do gênero em São Paulo), que sempre tinha as piores e mais violentas piadas feitas em cima de soropositivos e da Aids. Outra drag, muito famosa até hoje, costuma pegar um espectador da platéia e elogiar muito a sua bunda. Quando o coitado está bem envaidecido ela ataca: “pena que esteja toda cagada!!” E o seu público delira.  Por falar em soropositivos, percebam como eles ficam se comparando nas salas de espera dos Centros de Referência. Algo como: “ainda bem que não estou como aquele” ,”estou melhor que aquele outro” , “nossa, como ele está magro!” “ ... não tem grana para o Metacrilato??” ... Isso não seria crueldade também?

Sempre vi a homossexualidade como algo fortemente transgressor e revolucionário. Penso que a força demolidora do nosso sexo e amor seria capaz de criar uma nova sociedade, muito diferente dos parâmetros da atual. Por isso que me sinto tão desiludido quando vejo gays reproduzindo papéis e comportamentos tão negativos e que machucam tanto. E mais, nessa reprodução há uma armadilha. Uma cilada que irá cobrar um alto preço, mais tarde, quando não existir nem tempo mais para o arrependimento.

 A sociedade que aí está foi construída por heterossexuais, segundo os valores deles, (somos minoria, alguns falam em 10% da população, outros menos). Mesmo que eu considere a visão maior/menor preconceituosa e reducionista, tenho a certeza que esta sociedade não é feita para os menores,  valores esses que não precisaríamos comprar: o machismo exacerbado antes de tudo, o futebol em detrimento da arte e da cultura, o Ter antes do Ser, o culto das aparências, vivemos em nome de uma imagem a tal ponto que nem sabemos mais quem somos, no final das contas. A sede pelo dinheiro, a banalidade sexual.

Vejo cotidianamente gays se entregando para uma autentica miséria sexual, outra forma de crueldade, consigo e com outros: pegação em banheiros públicos, cinemões, shoppings, parques etc. E ponto. Se contentam com isso. Eu costumava pichar portas de banheirões com a seguinte frase: “Não façam apenas pegação. Façam também a Revolução!”. Nada contra pegação generalizada. Mas acho pouco. Muito pouco. Nada contra a pegação, mas também nada contra o amor e a revolução. Nada contra usar o soberbo poder do sexo para mudar o mundo. Nada contra os que procuram entrega nas suas relações e nos sentimentos. Não usar de toda a nossa força também é cruel. 

Boicotes e auto-boicotes, idem.
 
Negar o amor é cruel.

*Ricardo Rocha Aguieiras – escritor, autor teatral e militante do movimento LGBT