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Tarquínio: trinta anos depois

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 26/11/2012 Colunista: Carlos Pinto

“ Não crie expectativas em relação

às pessoas que convivem ao teu redor.

É melhor você ser surpreendido,

do que ser decepcionado.”

(DA)

 

Trinta anos nos separam do desaparecimento de Esmeraldo Tarquínio, aquele que venceu no voto, mas foi derrotado nas articulações dos conservadores da cidade, que tramaram na calada da noite a sua cassação. Com isto, ficamos todos com um gosto amargo de traição, sem saber de que forma se comportaria como Prefeito, aquele menino nascido em São Vicente, e que desde tenra idade teve que começar a trabalhar para ajudar a família.

O lançamento do livro sobre sua vida, baseado em depoimentos de amigos e documentos da época, lança um pouco mais de luz sobre a trajetória deste negro ilustre, de caráter firme, de conduta ética ilibada e com uma folha corrida de grandes e bons serviços prestados à causa pública e política. Esta obra, de autoria da jornalista Rafael Motta, que será lançada nesta terça-feira, 27 de novembro, às 18h, no Salão Nobre Esmeraldo Tarquínio, da Prefeitura de Santos.

Tive a honra de ser seu amigo e companheiro na árdua luta da fundação e implantação do MDB, em todo o Estado de São Paulo. Mesmo após sua cassação, tínhamos encontros frequentes para discutir o futuro, pois dez anos passariam rápido, em sua visão. Infelizmente, quando estava com sua eleição garantida para mais um mandato na Assembleia Legislativa, foi novamente “cassado”, e definitivamente, por um acidente vascular cerebral.

Tarquínio era uma figura agradável, bem falante, esmeradamente educado, e tratava a todos com enorme simpatia. Diferente de alguns políticos de hoje, cuja arrogância e prepotência, ultrapassam a barreira do som. Tinha sempre resolução para os problemas que surgiam, e não era dado a empurrar esses mesmos problemas com a barriga, coisa muito normal nos dias que correm. Um estilo pouco em voga na política nacional.

O conheci na noite santista, cantando nos velhos bailes que se realizavam nos clubes do centro da cidade, notadamente a Humanitária, o Jabaquara, o SMTC Clube, Nacional, entre outros. Tinha uma voz forte, límpida, entoando os clássicos da época, notadamente o ritmo que mais lhe agradava: o jazz. Tinha planos de transformar a cidade de Santos em um polo de produção cinematográfica, utilizando os antigos armazéns de café, então ociosos, vítimas da crise que se abateu sobre a produção cafeeira.

Era um defensor da expansão da cidade para sua área continental, onde pretendia erguer um novo prédio da Prefeitura, e de lá governar pelo menos de dois a três dias por semana. Já se preocupava com a divisão daquela área, e com a perda da região hoje ocupada pelo município de Bertioga. Tinha uma visão desenvolvimentista e arrojada, o que por certo levaria a cidade a ocupar sua antiga posição econômica, duramente atingida pelo fechamento do jogo e a crise do café. Se concretizaria tantos projetos, jamais saberemos.