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O talento e o lirismo de Walmor Chagas

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 23/01/2013 Colunista: Carlos Pinto

“Madrugada aberta

no meu peito a tua voz,

no meu rosto teu sorriso,

franco e aberto.”

(CP)

 

Pretendia fazer-lhe uma surpresa. Estava acertando passar uns dias com minha mulher em Campos do Jordão, e então dar uma chegada até a chácara do Walmor. Afinal de contas atenderia os vários convites para conhecer seu refúgio, onde se enclausurou nestas últimas duas décadas. Eis que o surpreendido fui eu com a noticia de sua morte, tão inesperada como tantas outras. Conhecia Walmor dos palcos até o momento em que Cacilda Becker assumiu a presidência da Comissão Estadual de Teatro. Daí nos tornamos amigos.

Estávamos em plena vigência do regime militar, e a liderança que Cacilda exercia na classe teatral, exigia sua luta contra a censura, os ataques do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) aos teatros paulistas, além das prisões e desaparecimento de artistas, como foi o caso do sequestro de Norma Benguell, quando o apartamento de Walmor e Cacilda, em uma das esquinas da Avenida Paulista, era transformado em ponto de resistência da classe teatral.

Em várias oportunidades, tanto Walmor quanto Cacilda, insistiam no fato de que eu deveria seguir a carreira profissional no teatro. Certa vez ambos viajaram para os Estados Unidos e, dias depois me telefonaram. Estavam entusiasmados com dois textos teatrais cujos direitos haviam adquirido para encenar no Brasil. Um deles era o célebre “Esperando Godot” de Samuel Beckett, e o outro “Os Olhos Vazados”, de Jean Cau. A ideia era montar “Godot”, com direção de Flavio Rangel e, posteriormente, começar a montagem de “Os Olhos Vazados”, com direção de Maurice Vaneau.

Acabei concordando com eles em participar deste segundo texto, com três personagens: o casal e o amante de ambos. Mas quis o destino que Cacilda tivesse seu acidente vascular cerebral durante uma das apresentações de “Esperando Godot”, que resultou em sua morte dias depois. Com isso a montagem do texto de Jean Cau, que já estava em processo de leitura, acabou sendo esquecida.

Walmor não era só talento, elegância e o lirismo que exercia nos palcos, no cinema e na TV. Walmor era um cidadão de fina educação, saído da forja teatral que era a Escola de Arte Dramática de Porto Alegre, responsável por outros grandes nomes do teatro brasileiro tais como: Antonio Abujamra, Lilian Lemerts e Fernando Peixoto. Era também um grande amigo e um apaixonado por sua arte, a qual considerava como sua religião. Para ele o palco era um altar e o espetáculo um culto sagrado

Por essas e tantas outras razões que a imprensa já comentou, o desaparecimento de Walmor Chagas abre um vácuo na cena teatral brasileira. Ele não era apenas um grande ator nacional. Ele era na real um dos maiores atores dos palcos do mundo, e como tal era celebrado em outros países. Perde o teatro brasileiro um dos seus grandes expoentes, que neste momento deve estar se reunindo a Cacilda, Raul Cortez, e tantos outros, procurando por Franco Zampari na tentativa de que este promova a montagem de um novo TBC: Teatro Brasileiro do Céu.