Jornal Espaço Aberto

Página Inicial

Colunas Impressas » De Olho na Política

Cultura Paulista - A contribuição teatro amador – VI

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 25/04/2013 Colunista: Carlos Pinto


Torna-se necessário ressaltar o trabalho desenvolvido por Hamilton Saraiva, que durante anos presidiu a Federação Paulistana de Teatro Amador, sediada na Capital, e o Conselho Deliberativo da Confederação de Teatro Amador do Estado de São Paulo. Foi ele o responsável pela elaboração de toda a legislação que amparava o teatro amador, bem como, da legislação que criou a Comissão Estadual de Teatro, ao tempo do Governador Jânio Quadros.

Era de sua responsabilidade também, anualmente, elaborar o regulamento do Festival Estadual de Teatro Amador, bem como dos Congressos desses amadores, alem de atuar em toda a parte burocrática que envolvia nossas relações com o Governo do Estado. Alem disso, dirigia seu grupo, o Teatro Jambaí de Comédia, um dos mais importantes do movimento, e elaborou toda a legislação relacionada com a concessão de bolsas de estudos aos amadores premiados nos Festivais Estaduais.

Foi acima de tudo um grande companheiro, que relatava processos na CET, que através do seu bom senso aparava as arestas que eram criadas por mim e outros companheiros, junto a esse mesmo governo. Professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, doutor em iluminação cênica, e seguramente nossa autoridade maior nesse setor. Seus livros e publicações sobre a arte de se fazer uma iluminação teatral, alem dos cursos que ministrou, foram de grande valia para os amadores paulistas. Sua tese de doutorado sobre os efeitos da cor sobre os espectadores, é simplesmente um primor de qualidade. Pena que até hoje não tenha sido editada.

Hamilton Saraiva era um pacificador por excelência. Quando áreas de turbulência eram acionadas, normalmente quando o governo não se dispunha a discutir nossos projetos, ou quando atrasava os pagamentos de verbas destinadas às Federações, ou a grupos amadores, ou mesmo aos grupos de teatro estudantil e universitário. Cabia a mim iniciar o bom combate, apesar dos tempos difíceis que atravessávamos, e não raro essas pendências descambavam para as agressões verbais. Aí entrava o pacificador, aparando arestas, negociando em nome do movimento para que as nossas pretensões fossem atendidas. E sempre com êxito.

Jogamos um jogo, onde os interesses da cultura paulista, notadamente do teatro amador, estavam acima de qualquer outro interesse. Nunca nos deixamos cooptar pelos governos que se sucederam no Palácio dos Bandeirantes, ou em qualquer Prefeitura do Estado. Tínhamos uma visão, que alias prevalece até hoje, de que através da educação, da cultura e do esporte, temos condições de construir uma cidadania voltada para os reais interesses da coletividade brasileira. Esse tripé, quando valorizado pelo estado, principalmente pelos governantes, será o tripé da salvação do país, através da formação de uma juventude sadia, culta e voltada para o trabalho coletivo, distanciada dos mesquinhos interesses pessoais e individualistas.

Hamilton Saraiva era o nosso grande ideólogo, competindo a nós, demais dirigentes do movimento, a construção voltada a atender os grupos amadores e a cultura do interior paulista. Praticante da religião espiritualista, amigo de Chico Xavier, tinha sempre uma palavra amiga, um conselho bem formulado, e todo o tempo do mundo para atender as demandas do teatro paulista, que muito deve ao seu trabalho dedicado e ao brilho de sua mente criadora. Foi também, um grande dramaturgo, cujos textos necessitam de publicação, em função dos temas abordados, que continuam atuais.