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Leny Eversong: da glória ao esquecimento

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 01/06/2013 Colunista: Carlos Pinto

Leny Eversong: da glória ao esquecimento

“É fácil apagar as pegadas.

Difícil é caminhar

sem pisar o chão.”

(Lao Tsé)

 

 Hoje quando se fala em “apagão”, somos obrigados a concordar com a debilidade da memória popular, com relação a grandes artistas nascidos em Santos. Nascida Hilda Campos Soares da Silva, em 1º de setembro de 1920, ganhou o nome artístico de Leny Eversong, e apareceu aos doze anos participando de um programa de calouros da Radio Clube de Santos. Adotou esse codinome ao ser contratada pela Radio Atlântica, onde interpretava foxes americanos, notabilizando-se por cantar em inglês, muito embora também se utilizasse da língua francesa.

 Ao final dos anos trinta transferiu-se para São Paulo, trabalhando como crooner em boates e cassinos, alem de trabalhos em várias rádios paulistanas, o que lhe valeu sua primeira excursão para o exterior, mais propriamente a Argentina. Na década de 50 voltou a gravar musicas brasileiras e gravou alguns LPs interpretando em vários idiomas. O grande sucesso de sua carreira foi a composição de Shanklin, “Jezebel”, cuja primeira gravação foi em 1952.

No final dos anos cinquenta excursionou aos Estados Unidos, tendo gravado um disco intitulado “Leny Eversong na América do Norte”, ao lado da Orquestra de Neal Heafil. Realizou oito temporadas em cassinos de Las Vegas. Gravou na Continental, na RGE e na Copacabana, e nos anos sessenta participou da montagem da “Ópera dos Três Vinténs”, de Bertolt Brecht, alem de realizar shows no Canecão. Viveu o auge de sua carreira na segunda metade dos anos cinquenta, tendo sido capa das principais revistas da época, e dona de invejável carreira internacional, com apresentações em Nova York, México, Paris, entre outras cidades.

Daniel Salinas, maestro que a acompanhou em várias dessas turnês, foi testemunha do grande sucesso que Leny concretizou onde se apresentou. Segundo ele, em países da America Central ou na Venezuela, onde era desconhecida, era aplaudida de pé em função do seu potencial de voz, em um momento em que raros artistas brasileiros faziam sucesso no exterior. Leny gravou discos com grandes músicos nos melhores estúdios, um desses discos pela gravadora Coral com a Orquestra de Neal Heafil e, pela Vogue francesa com a Orquestra de Pierre Dorsey.

Conheci Leny Eversong em casa de seus parentes ali na Rua Pérsio de Queiroz Filho, e tive oportunidade de ouvir seus relatos sobre suas viagens e lugares onde cantou. Apesar do sucesso era muito humilde e encarava a vida com grande simplicidade. Seu calvário começou no início dos anos setenta. Seu marido saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou. Consta que foi sequestrado e sumiu literalmente. Esse fato marcou demais sua vida, e foi amparada por vários artistas, entre os quais seu amigo Agnaldo Rayol, que a levou para passar uns dias em seu sitio em Itapecerica da Serra.

Por essa época afastou-se definitivamente da vida artística, aparecendo raras vezes em programas de televisão ou outros eventos. Faleceu em 1984, totalmente esquecida, vitima da diabetes, aos 64 anos de idade. Leny Eversong é hoje vítima desse apagão de memória. Dizem que sua gravação de “Águas de Saquarema”, de Juca Chaves, inspirou Tom Jobim a compor seu grande sucesso “Águas de Março”. Não se acham seus discos, exceto nas redes sociais.