Jornal Espaço Aberto

Página Inicial

Colunas Online » Desatando Nós

Do gueto ao show business

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 15/03/2011 Colunista: Alexandre Martins Joca

“Desatando Nós” é um espaço aberto à discussão sobre diversidade sexual. Os artigos devem ser encaminhados à Coluna por e-mail para jornal@jornalespacoaberto.com com cópia para espacoaberto@litoral.com.br e alexmartinsjoca@yahoo.com.br

 
Do gueto ao show business
*Fábio Morelli e Rogério Melo
 
 
O significante e necessário debate acerca da visibilidade LGBT nunca esteve  tão disseminado por meios de comunicação populares com a tentativa de um discurso pro-LGBT – não que o debate tenha surgido somente quando atingiu estes meios, mas a dimensão que esta “polêmica” atingiu é digna de reflexão.
 
A figura do gay, da lésbica, da (o) travesti ou da (o) transexual tem adquirido espaço nestes meios a fim de entretenimento, ou seja, “pode ser gay desde que me proporcione risos ou distração”.
 
Desta maneira instaura-se uma válvula de escape para o preconceito, já que assim se torna possível usar do discurso de aceitação só porque agora há uma abertura ao convívio diário como o proporcionado pelas últimas edições do programa da Rede Globo: o BBB. Gera uma espécie de “politicamente correto pró-consumo”. 
 
Este processo faz com que a existência de algumas figuras queer – isto é, aquelas que não se encaixam dentro de categorias relativas ao gênero e à sexualidade heteronormativos – saia dos grilhões do gueto para as algemas do show business
 
Além destes, há ainda aqueles que se tornam artigo de luxo, sendo objetos de exibição de “madames” como parceiros de compras e companhias diárias somente porque há a visão de que todos os gays conhecem e acompanham o mundo da moda, que são sempre alegres e fiéis.
 
Tal visibilidade garantida pela mídia televisiva alcança a formação de opiniões populares que interferem fortemente, quando vêm à tona os assuntos relativos à população LGBT.
 
A parada gay, por exemplo, é vista como um show de promiscuidade que acaba formando pré-conceitos acerca do gay como sempre promíscuo; perdendo aos poucos o foco do objetivo original do evento.
 
Deste modo, os plenários, os projetos sindicais, as políticas públicas, os Direitos Humanos e a população em geral, e principalmente a população LGBT, não só devem se preocupar com as questões já tratadas nos movimentos políticos orgnizados por esta população, como também acompanharem estas nuances acerca da visibilidade, e se questionarem a respeito desse “BOOM” midiático em novelas, filmes e programas de humor. Pois é notório que até a alguns anos atrás o gay era visto apenas em matérias relacionadas à criminalidade, a Aids e a doenças sexualmente transmissíveis.
 
Sendo assim, será que de lá pra cá, nós mudamos nossa concepção em relação ao relacionamento sexual?
 
Estamos mais “acessíveis” ao público LGBT?
 
Ou será que só aceitamos o que é cabível a nosso bel-prazer?
 
São questões pertinentes e que não devem se perder ao longo do caminho, devido a termos clareza de que o índice de rejeição as relações homoafetivas é extremamente alto e que a homofobia não se caracteriza apenas pela violência física, mas também pela humilhação, escárnio e chacotas.
 
Contudo, apesar do binarismo gerado pela mudança do modelo hierárquico (macho[ativo]/bicha[passivo]) para o modelo igualitário (gay[ativo/passivo]/ ainda ser aglutinador, houve, ao menos, uma conquista no que tange à busca de notar o outro como um diferente passível de aceitação, cuja gênese foi de responsabilidade dos movimentos voltados às questões de sexualidade.
 
Afinal, foi só a partir da existência dos movimentos de afirmação gay que se começou a trabalharr uma proposição mais igualitária (gay/gay) em detrimento da hierárquica (bicha/macho)[1] e, só assim, se pôde passar a pensar na figura gay como politicamente representada, mas que, ao mesmo tempo, difundiu valores ainda carentes de revisão.
 
O importante aqui é ressaltar que, no que diz respeito a gênero e à sexualidade, ainda há muito que refletir e lutar, porque ainda estamos vivendo um momento no qual qualquer tiro pode sair pela culatra, passando a evidenciar valores ainda errôneos e equivocados que podem atingir diretamente a população LGBT e todos que estão a ela ligados.
 
([1] Para saber mais: GREEN, James. Além do Carnaval. A homossexualidade masculina no Brasil do século XX. São Paulo: UNESP, 2000)
 
*Fábio Morelli, Graduando em Ciências Sociais pela UNESP/Marília é membro do Grupo de Pesquia e Estudos Sobre Sexualidade (GPESS)

*Rogério Melo, Graduando em Psicologia na Universidade Paranaense – UNIPAR é membro do Grupo de Pesquisa de Estudos em Políticas Públicas em Saúde ( GEPPS), do Grupo de Pesquisa Bioética, Direito e Cidadania e membro da ONG Expressões, Direitos Humanos,Cultura e Cidadania.