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Extra!!! Extra!!! A Homossexualidade em Foco

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 04/04/2011 Colunista: Alexandre Martins Joca

 

Nas últimas décadas, mais precisamente dos anos 1990 pra cá, a homossexualidade tem ocupado lugar de destaque nos meios de comunicação de massa. Jornais de grande circulação, novelas e demais programas de TV vêm dedicando espaços e atenção às questões relacionadas à diversidade de orientação sexual. Neste texto pretendo refletir sobre esta proliferação de discursos sobre a homossexualidade e à repercussão social deste fato nos meios de comunicação.
No início dos anos de 1990, a temática da homossexualidade invadia os programas de TV - com cantores/as e artistas assumindo a sexualidade negada – associada ao pânico da “Peste Gay”, a Aids.
Eram comuns, também, as manchetes sobre homossexualidade estarem restritas às páginas policiais da imprensa escrita, geralmente noticiando os assassinatos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais - LGBT. Por outro lado, no âmbito do movimento social, a partir de 1995, no Brasil, os LGBT organizavam e já iam às ruas aos milhares nas Paradas Gays de São Paulo pondo em pauta a luta pelos direitos sexuais desta população e o projeto de União Civil entre pessoas do mesmo sexo já tramitava no Congresso Nacional. 
Assim, o fortalecimento do movimento LGBTT contribui para por em pauta uma outra dimensão da homossexualidade quando torna públicas as desigualdades sociais oriundas da hegemonia heteronormativa e denuncia o descaso do Estado frente às desigualdade e carência de políticas específicas reparatórias, pautadas na afirmação de identidades sexuais.
Neste cenário, quando aparentemente a homossexualidade entra em moda, o comércio, numa dimensão capitalista, apropria-se desta proliferação de discursos sobre a diversidade de orientação sexual para ditar “o jeito gay ser”, reafirmando estereótipos, através de lojas, bares, boates específicas a este público e restringindo a sociabilidade desta população a guetos, numa afirmação nítida da impossibilidade da convivência com as diferenças sexuais. É a afirmação da existência do famoso “mundo gay”.
O que está em jogo é o antagonismo entre dois pólos de disseminação da homossexualidade com perspectivas ideológicas distintas: o primeiro, protagonizado pelo movimento LGBTT, numa perspectiva de enfrentamento da homofobia e reivindicação de direitos. O segundo, através da compilação, pelo mercado, da homossexualidade para fins de lucro, de olho no que passou a ser conhecido como “pink money”.
Neste cabo de forças, a mídia, importante mecanismo social de formação de opinião, aparece como instrumento importante no centro deste enfrentamento. Se por um lado, a existência de personagens gays nos horários nobre de TV leva essa temática para as salas dos lares brasileiros, por muitas vezes, estes mesmos personagens reafirmam preconceitos quando exibem um modelo de “homossexualidade” a ser aceitável.
Geralmente os autores (de novelas) oscilam entre reproduzir a caricatura do gay efeminado, debochado, cômico, ou o ideal da homossexual a ser socialmente aceitável: brancos, ricos, higienizados, “bons moços”.
Dificilmente as tramas brasileiras abordam as questões fundamentais de produção e/ou reprodução da homofobia, talvez por esta abordagem não elevarem os índices de audiência.
Este cabo de força reflete as contradições sociais vividas, no campo do sexual, sobre a homossexualidade. Enquanto a defesa da livre orientação sexual adentra os discursos politicamente corretos respaldado pela da defesa dos direitos sexuais enquanto direitos humanos, na defesa da sonhada “igualdade e liberdade” prometida pelo ideal de democracia, as leis referentes aos direitos desta população enfrentam resistências em virtude do conservadorismo do parlamento; as políticas educacionais resistem a incorporarem essa temática nos currículos das escolas brasileiras; e pior, os assassinatos de LGBTT continuam, em sua grande maioria, impunes por falta de legislação específica.
Diante desse embate, se fosse possível nos colocarmos apenas enquanto espectador, diria que nos restaria esperar pelas cenas dos próximos capítulos. Mas como a neutralidade, nesses casos, é quase sempre ilusória, para não dizer falsa, acredito podermos escrever, talvez, alguns trechos dessas histórias.
 
Alexandre Joca Martins