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A morte do Mestre de Caruaru

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 20/10/2013 Colunista: Carlos Pinto

A morte do Mestre de Caruaru

A morte do Mestre de Caruaru

 

 

“A leitura de contos de Dostoievski.

Penso que o mundo está atravessando

uma decadência de poder muito grande.

Assim, sempre leio os textos desse escritor

russo quando quero entender as cabeças dos homens.”

(Vital Santos)

 

Vital Florentino da Silva, ou simplesmente, Vital Santos, nasceu em Toritama, no agreste pernambucano e ainda garoto se transferiu para Caruaru, onde passou grande parte de sua juventude na Rua Preta ou bairro de São Francisco. E foi nos anos 60 que floresceu para o teatro, trabalhando como ator, diretor e autor, além de produzir suas encenações. Foi um dos fundadores do Grupo de Teatro Popular de Caruaru, e com essa equipe participou de dezenas de festivais nacionais de teatro, por todo este país.

O conheci nesses festivais, e criamos uma boa amizade. Vital era um mestre do teatro, amigo de outro mestre da escultura que era Vitalino, e foi através dele que tomei conhecimento e consciência da arte que se praticava no nordeste brasileiro. Estivemos juntos em festivais que se realizavam em São Carlos, São José do Rio Preto, Salvador, Campina Grande, entre outras cidades.

E foi em São Carlos que ele me presenteou com duas obras do Mestre Vitalino, que se não fosse o descuido de uma faxineira estariam comigo até hoje. Muito embora eu tenha me afastado do teatro no começo dos anos oitenta, Vital continuou firme e forte. Foi o Secretário Adjunto de Cultura de Pernambuco, cujo titular era Ariano Suassuna. Mas sempre mantivemos contato telefônico, um sempre prometendo uma visita ao outro, o que, infelizmente, nunca ocorreu.

Vital foi um dramaturgo premiado, bem como os espetáculos por ele dirigidos e criados. Sua primeira obra, “Feira de Caruaru”, foi baseada no livro de José Condé, “Terra de Caruaru”, escrita em 1967. No ano seguinte apresentou nova obra, “Rua do Lixo 24”, com a qual arrebatou cinco prêmios no Festival Nacional de Teatro realizado em 1969.

Mas com o texto “O Auto das Sete Luas de Barro”, obra biográfica sobre Mestre Vitalino, se consagrou definitivamente. Corria o ano de 1979 e Vital ganhou vários prêmios com essa encenação, entre os quais: Prêmio Moliére; Prêmio Mambembe; Prêmio Governador do Estado do Rio de Janeiro e, o prêmio da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte. Foi  vencedor de vários festivais nacionais com outra obra sua: “O Sol Feriu a Terra e a Chaga se Alastrou”, isso em 1975.

Além disso escreveu dezenas de textos, entre os quais podemos citar “A Menor Pausa”; “A Árvore dos Mamulengos”; “Recortes da Infância”: “A Noite dos Tambores Silenciosos” e “Uma Canção para Othelo”, que o diretor Tanah Corrêa dirigiu recentemente em Santos.

Residiu em Olinda e Recife, onde por problemas de leucemia, faleceu na última sexta feira. Foi sepultado no cemitério Parque das Flores, na zona sul do Recife, e o Prefeito de Caruaru decretou luto oficial por três dias. Um de seus últimos trabalhos foi “Cantigas do Sol – Dom Quixote de Cordel”, sua homenagem a Luiz Gonzaga.

Por toda a sua obra, Vital Santos é um digno representante das artes cênicas nordestinas, e tem garantido o seu lugar na História do Teatro Brasileiro.