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Entre afetos, encontros, amizades e sexualização dos corpos.

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 08/11/2013 Colunista: Alexandre Martins Joca

Entre afetos, encontros, amizades e sexualização dos corpos.

 


 

 

 

 

Ao adentrarmos a cultura gay transcontemporânea aonde as identidades e os limites dos prazeres vêm sendo questionados a todo o momento, seja pela produção discursiva de teorias pós-estruturalistas, ou por homens e mulheres que não se contentam mais com as normativas sobre seus corpos, ainda encontramos linhas molares de afetos que impossibilitam a experiência de novos territórios de desejos e prazeres (Alcantara, 2004).

 

Pensando num primeiro momento nas relações estabelecidas pelas afinidades, aproximações, encontros, práticas sexuais de um circuito gay que se configura em espaços físicos e subjetivos da sociedade, acabamos nos deparando com campos estreitos de afetos e sexualização dos corpos e das relações. O aproximar-se de uma outra pessoa que tem as mesmas práticas e desejos sexuais que os meus, sempre traz nas suas entrelinhas qual seria o objetivo em si dessa aproximação/encontro.

É como se o suposto sentimento de carinho e afeto que pudesse emergir teria por trás os desejos sexuais de levar esse alguém para a cama, e não apenas estabelecer um relacionamento de amizade, ou apenas de um se conhecer. Como se o que move um homem gay a se aproximar de outro seria o fato exclusivamente da busca de prazeres. Podemos pensar que, tal questão parte da idéia construída epistemologicamente sobre a figura do gay, que ainda é visto como alguém que pensa a todo o momento em sexo, e que não tem outras coisas tão importantes quanto para fazer no seu dia a dia (Garcia, 2004).

Isso remete a cena de um seriado dos anos 80 chamado Queer as Folk, no qual em seu primeiro episódio, um dos personagens gays ao narrar a estória do seriado e dos outros personagens principais, acaba diferenciando os heterossexuais dos homossexuais, dizendo que os homens heterossexuais pensam quase todo momento em sexo, mas os homossexuais a todo instante. Assim, ao ter um olhar mais próximo da cultura gay nacional dá pra perceber como que essa narrativa acaba sendo absorvida, ou melhor, se tornou uma linha subjetiva nas relações homossexuais. Além disso, não deixa de ser um estereótipo regulado pela sociedade machista do “El comedor”, ou seja, aquele sempre pronto e preparado para atividades sexuais e caso ele não corresponda a essa norma de masculinidade, pode-se então questionar a sua virilidade. Assim, sua aceitação enquanto homem perpassa as suas atividades sexuais tanto entre os heterossexuais quanto entre os gays. 

A sexualização dos corpos gays e do seu próprio comportamento, por muitas vezes não deixa espaço para se ir além desses agenciamentos estabelecidos por estereótipos identitários, que demarcam as intenções previamente. Ai cabe nos perguntarmos: Todas as aproximações têm cunho sexual? Os gays só pensam em sexo?

É possível que o interesse meramente sexual entre os gays seja uma herança cultural de sua trajetória história. Segundo Gagnon (2006) num momento anterior ao da disseminação do orgulho gay através da constituição de um movimento político abertamente gay, não haviam muitos locais considerados seguros para a socialização gay para além de contatos sexuais. Os ambientes de encontros eram, em sua maioria, clandestinos (bares, praças, becos, tabernas), ou seja, locais que comprometiam os sujeitos caso fossem flagrados. Neste sentido, o contato era breve e primordialmente sexual. Após o coito muitos retornavam às suas atividades cotidianas que, muitas vezes, incluíam o provento de suas famílias e/ou trabalhos que não eram tolerantes quanto as suas práticas e desejos. 

Neste debate, não há como desconsiderar as considerações sobre as mudanças no modo de se relacionar afetivamente. Anthony Giddens (1991) considera que a confiança em uma pessoa exige uma mutualidade de envolvimento, sendo que a segurança dessa mutualidade não é garantida por relações nos dias atuais, seja pela família, amigos ou colegas de trabalho. Apresenta-se assim uma prévia desconfiança e cautela ao conhecer novos sujeitos, parece ser arriscado se envolver e se entregar em uma relação afetiva. Aparentemente, fica uma questão latente ao se envolver: Vale a pena arriscar? 

Diante de tais pressupostos e indagações, podemos refletir sobre o que Beatriz Preciado aborda no seu livro: Manifiesto contra sexual, no qual destaca que as relações partem de um contrato contra-sexual, de uma negociação (PRECIADO, 2002). Que a vida em si é sempre uma negociação e re-negociação, onde as partes mediante uma autenticidade deixam visíveis suas intenções, sonhos, desejos, valores, etc. Mas como pode isso acontecer, se não há uma abertura de dês-construção de uma ficção da realidade e da corporeidade gay, pelos próprios gays?

Todavia, ao mesmo tempo em que existem tais características tão demarcatórias da homossexualidade, uma outra questão intrigante em meio essa cultura gay é o fato de que a amizade e sexo são algo que não combinam, em algumas relações. As transas só podem acontecer entre estranhos, desconhecidos, ou com alguém que não tenha a principio nenhum vínculo afetivo. O fato de se conhecer o outro e vice-versa parece ao invés de produzir possibilidades outras de experimentações de prazeres e desejos, por vezes são barreiras demarcadas para uma aproximação sexual.

Porém, pensando em outro viés que seria de um contra-poder a essa realidade, Foucault em uma entrevista publicada no Jornal Gai Ped em 1981, enfatiza que nessa fronteira social da “identidade” gay, e aqui podemos acrescentar da cultura gay, se produz certo tipo de aliança que possibilita “[...] escapar às duas fórmulas completamente feitas sobre o puro encontro sexual e sobre a fusão amorosa” (p.39). É um lugar confuso por não ser de certo modo regido pela norma da heterossexualidade compulsória; produzindo afetos e afetações diversas e múltiplas.  

Seria então possível pensar numa ética de amizade e de afetos que não sejam demarcatórios e impossibilizadores, mas territórios de encontros libertários? (PASSETTI, 2003).

 

Rogério Melo - Psicólogo e Mestrando em Psicologia e Sociedade na UNESP/Assis-SP.

 Fábio Morelli - Graduando em Ciências Sociais na UNESP/Marília e membro do Grupo de Pesquisa e Estudos Sobre Sexualidade (GPESS).