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Teatro do Absurdo e o absurdo do Teatro

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 04/04/2011 Colunista: Carlos Pinto

 

“Realmente vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível noticia
que está para chegar.”
(Bertolt Brecht)
 
 
 
 
O nervoso elenco da Companhia San Francisco Actor´s Workshop, se preparava para enfrentar uma platéia toda especial. Era l9 de novembro de 1957, e a referida platéia formada pelos detentos da penitenciária de San Quentin, num total aproximado de 1400 prisioneiros.
O texto a ser representado era “Esperando Godot”, de Samuel Beckett, motivo maior da tensão do elenco e de seu diretor Herbert Blau.
 Que reação poderiam esperar de uma platéia rude, diante de um texto altamente intelectual, obscuro, que vinha provocando tantos protestos em platéias densamente sofisticadas da Europa Ocidental?
A escolha dessa montagem também estava diretamente ligada ao fato de não haver nenhuma figura feminina no elenco.
Diante disso o diretor Herbert Blau decidiu preparar a platéia para o que viriam a assistir.
Subiu ao palco e diante daquela massa de homens fumando, comparou a peça a um trecho de jazz, ao qual deveriam prestar bastante atenção, seja qual fosse a reação que viesse a provocar.
Disse mais, que esperava que cada um deles encontrasse no espetáculo, uma mensagem que pudesse vir a aplicar em si próprio. Abriram-se as cortinas, a peça começou, e aquilo que tanto havia perturbado as platéias sofisticadas da Europa Ocidental e também em Nova Iorque, foi de imediato apreendido pelos detentos.
Além dessa reação da platéia, evidenciando uma total identificação entre público e elenco, os jornais da penitenciária foram testemunhas dessa identificação, através dos comentários que marcaram o pleno sucesso do espetáculo realizado.
 Presente ao evento, um repórter de famoso jornal americano anotou algumas opiniões dos presos: “Godot é a sociedade”; “Ele representa a liberdade”; Um professor do presídio comentou: “Eles sabem o que significa esperar, e eles sabiam que se Godot aparecesse, seria uma decepção. Há fases da nossa vida em que melhor seria sumir, mudar. Mas ainda estamos esperando por Godot e continuaremos a esperar”.
Traçando um paralelo com os praticantes de teatro de hoje, o que se observa é que eles querem que Godot apareça e solucione seus problemas. Abraçam uma profissão e não se preparam para ela, o que os conduz a propostas absurdas, inconstitucionais, que resvalam em provocações e vãs tentativas de engessamento do poder público, demonstrando um total desprezo pelo processo democrático.
 Talvez um aprendizado junto aos detentos de San Quentin, possa abrir suas mentes para os direitos de cada um.
Eu tive um professor na Escolástica Rosa que semanalmente aplicava uma frase de sua autoria: “Para que a inteligência floresça, torna-se necessário dissipar as camadas de ignorância que a cobrem.” E mandava os alunos estudar se realmente queriam escapar de alguma prisão, seja ela qual fosse inclusive, a da falta de respeito aos seus semelhantes.
 
 
Carlos Pinto

Jornalista