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O Teatro Épico e a Sociologia da Forma

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 11/04/2011 Colunista: Carlos Pinto

 

  “Os governos que levam as massas à miséria,
  tem de evitar que, na miséria,
  as massas se lembrem do governo”
  (J.P.Sartre)
 
 
Falecido em 1956, portanto há 55 anos, o dramaturgo Bertolt Brecht continua atual quando sua obra é analisada aos olhos da realidade mundial neste começo de século.
 
 Sua obra tem um claro compromisso com a causa política, mas em nenhum momento deixa de ser um artista criador, renovador do teatro mundial, que deixou suas concepções assinaladas definitivamente na história mundial do teatro.
 
Sua rebeldia contra a arrogância dos donos do poder, contra toda disciplina cega, contra as classes dominantes e os esquerdófilos de plantão, são fatores que o levam a se sentir capacitado de se exprimir através da palavra, dentro das regras estabelecidas pelos gêneros literários de outros artistas.
 
Como esses outros artistas não alcançam a massa através da palavra, e é exatamente a massa que Brecht quer e deseja alcançar, termina por criar a balada em oposição ao poema lírico; o teatro épico em oposição à tragédia clássica.
 
A isto deram o nome de sociologia da forma, ou seja, a adaptação e mudança de gêneros e formas literárias, como forma de atingir os aspectos sociais. Brecht vai conseguir seus propósitos, quando recria obras e temas de autores finlandeses, ingleses, poloneses, russos, japoneses e chineses, tendo sido por isso acusado de plágio.
 
Teatro Épico de Brecht foi a nomenclatura dada ao todo de sua obra, compreendendo a teoria e a prática de uma revolução de idéias e dos costumes teatrais, aplicada à expressão dramática.
 
Enquanto que na forma dramática tradicional as cenas encarnam a ação e faz o espectador participar dela, provocando seus sentimentos, no teatro épico a cena conta a ação e faz do espectador um observador critico, despertando sua ação através do despertar de sua consciência.
 
 O teatro épico possui um caráter dialético, considerando o homem não como supostamente conhecido, mas como objeto de pesquisa, sem ser universal e imutável, mas como um ente que muda e pode ser modificado, considerando o mundo não como ele é, mas como ele se torna.
O distanciamento crítico conduz a efeitos múltiplos, não apenas ao espectador como também à direção do espetáculo e sua iluminação, entretanto como o peso maior sobre o elenco.
 Para Brecht, o ator deve dar à sua interpretação uma função histórica, porque tem crença no fato de que o espectador é que deve ser o juiz da sociedade.
 
 Ao construir seu personagem e interpretá-lo, o ator deve ter a consciência e dizer a si próprio, que “era assim que aquele personagem falava em determinada época de sua vida, que era assim que ele comia, e que as pessoas de sua classe agiam e dessa forma vou reproduzir sua vida”.
 
Alem desse distanciamento que deverá haver entre o ator e o personagem a ser interpretado, Brecht sempre aconselhava o ator a acrescentar algo de seu, alem das recomendações do diretor do espetáculo.
 

Pelo antes descrito, torna-se desnecessário reforçar que apesar de fazer um teatro popular, Brecht não fez um teatro fácil, digestivo. Sua obra era construtiva, e traduzia a mensagem daquilo que disse um dia: “Queremos preparar o solo à amizade.”