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Da “Sopa de Letrinhas” à Subjetivação do Sexual

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 20/04/2011 Colunista: Alexandre Martins Joca

 

No artigo anterior a este, abordei a proliferação de discursos sobre a homossexualidade e sua repercussão nos meios de comunicação, o que me fez pensar sobre questões entorno dos estereótipos ou das identidades sexuais.
 
Somos sabedores que política de identidades sexuais classifica os sujeitos a partir de suas práticas sexuais e/ou de sua identidade de gênero.
 
Tal política rompe com a dicotomia homossexualidade/heterossexualidade e dissemina a idéia de orientações sexuais diversas, pautada, especialmente, na diversidade de maneiras de viver a sexualidade, de acordo com o desejo sexual e/ou afetivo pelo mesmo sexo, pelo sexo oposto ou por ambos; e ainda pela identidade de gênero, quando esta está em consonância com o sexo biológico ou não.
 
Assim, a homossexualidade passa a não ser vista como única e assume um caráter plural, ou seja, composta por categorias, nas quais os sujeitos compartilham de características biológicas, psíquicas e sociais semelhantes, no que tange à vivência da sexualidade e à identidade de gênero.
 
Essa categorização atualmente está composta da seguinte maneira:
 
Bissexuais: São pessoas que se relacionam sexual e/ou afetivamente com ambos os sexos. Alguns assumem as facetas de sua sexualidade abertamente, enquanto outros vivem sua conduta sexual de forma fechada.
 
Gays: São as pessoas que, além de se relacionarem afetivamente e sexualmente com pessoas do mesmo sexo, têm um estilo de vida de acordo com essa sua preferência, vivendo abertamente sua sexualidade.
 
HSH “Homens que fazem sexo com homens”: Termo utilizado principalmente por profissionais de saúde na área de epidemiologia para referir-se a homens que mantém relações sexuais com outros homens, independente destes terem identidade sexual homossexual. O Movimento utiliza hoje a expressão Gays e outros homens que fazem sexo com homens (HSH). (ABGLT, 2006, p.58/59)
 
Lésbica: Terminologia usada para designar a homossexualidade feminina.
 
Travestis: As travestis, apesar de aproximar seu corpo a formas femininas através das roupas e adereços como de alterações físicas, não deixam de obter prazer com o pênis. Uma travesti normalmente não tem a intenção de alterar seu sexo biológico. Essas características costumam aparecer na puberdade e intensificam-se na adolescência. Ela se sente e se expressa publicamente de forma feminina, mas sem abrir mão de alguns atributos masculinos em algumas relações que estabelece com a sociedade.
 
Transexual: São as pessoas que não aceitam o sexo que ostentam anatomicamente. Sendo o fato psicológico predominante na transexualidade, o indivíduo identifica-se com o sexo oposto, embora dotado de genitália externa e interna de um único sexo.
 
Como vemos, podemos perceber que estas categorias e/ou identidades sexuais são definidas a partir das práticas e comportamentos sexuais e sociais, principalmente da escolha do objeto sexual e da relação estabelecida entre o sexo biológico e a identidade de gênero.
 
Utilizadas atualmente pelo movimento homossexual brasileiro revelam uma série de questões importantes para nossas reflexões.
 
Elas apresentam-se também enquanto categorias políticas, no campo do movimento social, no sentido de atender às demandas políticas e sociais específicas, por exemplo, a necessidade das travestis e transexuais da alteração de nome nos documentos, no sentido de reconhecimento do gênero feminino, como também a adoção, pelo Serviço Único de Saúde – SUS dos procedimentos de mudança de genitália, reivindicada pelas transexuais femininas.
 
Demandas políticas marcadas pelos conflitos vividos nos contextos sociais dos sujeitos, partindo de sua identidade sexual. Assim, é inegável a importância desta política para a conquista de direitos no campo jurídico.
 
Basta observar a quantidade de países que nas últimas décadas incorporaram em suas legislações, leis específicas que garantem a igualdade e/ou equidade de direitos entre homossexuais (LGBT) e heterossexuais.
 
No entanto, os pós-estruturalistas, através de um olhar questionador sobre esta “sopa de letrinhas” e numa perspectiva pós-moderna de questionar o essencialismo positivista, põem em cheque a viabilidade de tal política, sob a premissa da subjetividade e do sexual, do caráter de pluralidade, instabilidade e fluidez da sexualidade humana.
Como encaixotar os sujeitos em padrões sexuais específicos, definidos e preestabelecidos, se estes estão em constante construção?
 
Se sexualmente somos, conforme costumam os pós-estruturalistas definirem, “viajantes” em constante ultrapassagem de fronteiras da sexualidade, a política identitária sexual vê suas “letrinhas” diluir-se num caldeirão de possibilidades do subjetivismo pós-moderno.
 
Bom... a única certeza que temos é que ainda há muita lenha a queimar... muitos temperos e condimentos a temperarem esse banquete. 
 
Alexandre Martins Joca