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1950: o grito sufocado

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 15/06/2014 Colunista: Carlos Pinto

“Os grandes navegadores

devem sua reputação aos

temporais e tempestades.”

                              (Epícuro)

 

 

O resultado final da Copa do Mundo de 1950, foi na verdade uma tempestade que se abateu sobre as quase duzentas mil pessoas que foram ao Maracanã naquela fatídica tarde de 16 de julho de 1950. Tinha eu naquela oportunidade, doze anos de existência, e estava ouvindo o jogo junto com meu pai, em um pequeno rádio de pilha no campo do XV de Novembro, uma das glórias do futebol varzeano santista.

Esse campo ficava na Av. Washington Luiz, esquina com Rua Guedes Coelho, onde hoje existe um conjunto habitacional. O XV de Novembro forneceu alguns jogadores para as equipes profissionais da Portuguesa Santista e do Jabaquara Atlético Clube, revelados em sua equipe que disputava o torneio da Liga Santista de Futebol Amador. Foi ali que conheci os irmãos Dirceu e Darci Barros. O primeiro um excelente goleiro que chegou a atuar profissionalmente em várias equipes brasileiras, e o segundo um zagueiro de ótimas qualidades que tentou seguir carreira na Portuguesa Santista, mas acabou se tornando um dos principais empresários e conhecedor de todos os meandros que envolvem o comércio exterior.

Aliás foi o Darci Barros, o grande mentor e construtor na nossa Pinacoteca Benedito Calixto, onde aplicou parte de sua fortuna para nos legar esse importante edifício da cultura santista. Mas retornando à Copa de 1950, quando Friaça aos dois minutos do segundo tempo abriu a contagem para o Brasil, que necessitava apenas de um simples empate, o país veio abaixo. Foi uma festa geral, calada com a sequência dos dois gols do Uruguai, marcados por Schiaffino e Ghiggia.

Foi uma Copa interessante, que teve a participação de apenas treze países. O mundo ainda se recuperava dos efeitos da segunda guerra mundial, e o Brasil acedeu em realizar o torneio, para o qual construiu o maior estádio de futebol do mundo: o Maracanã.

As copas não foram realizadas enquanto durou o conflito da segunda guerra. O cobiçado troféu ficou escondido em uma caixa de sapatos, na casa de Ottorino Barassi, então vice-presidente da FIFA. Com o retorno da competição a copa ganhou o nome de Taça Jules Rimet.

O interessante é que o Uruguai precisou apenas de um jogo para chegar a este quadrangular. Havia vencido a Bolívia por 8 a 0, e perdeu as outras partidas que disputou, enquanto o Brasil derrotou a Suécia por 7 a 1 e a Espanha por 6 a 1. Com a mão na taça o Brasil necessitava de um simples empate contra o Uruguai, mas a celeste olímpica acabou com os sonhos dos brasileiros.

Voltei para casa sem trocar uma palavra com meu pai. Eu acabava de sofrer a primeira decepção da minha vida. Nunca mais voltei ao campo do XV de Novembro, um tempo da minha vida onde era feliz e não sabia. E agora, sessenta e quatro anos depois, aqui estamos para vivenciar uma nova copa, com outro formato e a participação de trinta e duas nações que se classificaram para esta etapa final.

O que nos aguarda? Há um grito parado no ar, desde 1950.