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As perdas da nossa literatura

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 02/08/2014 Colunista: Carlos Pinto

“Somos as coisas que moram em nós.

Por isso há pessoas que são bonitas

não pela cara, mas pela exuberância

do seu mundo interno.”

(Rubem Alves)

 

O mês de julho recém findo foi de perda para a literatura brasileira. Em quarenta e oito horas perdemos dois expoentes das nossas letras: João Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves. Logo depois, Ariano Suassuna, um dos mais completos intelectuais brasileiros, também nos deixou.

Rubens Alves, um humanista formado em teologia e filosofia, chegou a ser pastor da Igreja Presbiteriana, cujas autoridades maiores dessa igreja o denunciaram como subversivo durante o período do regime militar. Em função disso teve que retornar aos Estados Unidos, onde havia estudado, para escapar das ameaças que recebia de setores ligados ao regime de exceção.

Foi através de sua tese de doutorado em teologia, intitulada “A Theology of Human Hope”, editada pela católica Corpus Books, que surgiram as primeiras sementes daquilo que anos depois recebeu o nome de Teoria da Libertação. Escreveu vários contos, onde desponta “O tempo e as jabuticabas”, “O quarto do mistério” e a “Festa de Maria”, entre outros. Foi autor de vários livros infantis, sobre a filosofia da ciência e da educação, sobre teologia e filosofia da religião, além de uma biografia sobre Gandhi.

Natural de Boa Esperança, Minas Gerais, conterrâneo do grande pianista Nelson Freire, teve sua cidade natal imortalizada por Lamartine Babo e Francisco Alves, na música “Serra da Boa Esperança”. Quando retornou ao Brasil, foi contratado por indicação do professor Paul Singer, para lecionar na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, no interior de São Paulo. Posteriormente foi para a UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas, primeiramente como professor adjunto na Faculdade de Educação e, posteriormente, como titular de filosofia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da mesma UNICAMP.

João Ubaldo era natural da Ilha de Itaparica, na boa terra da Bahia. Formado em direito nunca exerceu a profissão. Enveredou pelo jornalismo, e tornou-se um dos nossos mais notáveis escritores. Algumas de suas obras foram adaptadas para a televisão, teatro e cinema. “O Sorriso do Lagarto”, “A casa dos Budas Ditosos”, “Sargento Getúlio” e “Deus é Brasileiro”, são alguns exemplos. Foi o ganhador do Prêmio Camões em 2008, considerada a maior premiação em língua portuguesa. Membro da Academia Brasileira de Letras, na cadeira 34 sucedendo a Carlos Castelo Branco, João Ubaldo viveu parte de sua infância em Aracajú, e concluiu seu mestrado em Ciência Política, na Universidade do Sul da Califórnia, Estados Unidos. Residiu por algum tempo em Portugal e na Alemanha. Foi colega ao tempo de estudante no Colégio da Bahia, do cineasta Glauber Rocha.

Com a perda desses dois renomados escritores, nossa literatura se cobre de luto e abre um vazio difícil de ser preenchido. Rubem Alves com sua literatura recheada de pensamentos filosóficos, e João Ubaldo com sua verve baiana, cheia de ironia, e voltada para o desvendar de nossa sociedade. O infinito está mais rico, e nós, mais pobres.

 Suassuna: um vazio na cultura brasileira


Meus contatos com a obra de Ariano Suassuna começaram no final dos anos sessenta, através de outro dramaturgo pernambucano, Vital Santos, natural de Caruaru, recentemente falecido. Vital foi o Secretário Adjunto de Ariano, na Secretaria de Cultura de Pernambuco, e sua obra guarda uma semelhança com a do mestre. Posteriormente, ao início dos anos setenta, durante a fase final do Festival de Teatro Amador do Estado de São Paulo, realizada em São Carlos, assisti a uma primorosa montagem do “Auto da Compadecida”, por um grupo de Sorocaba, e que revelou os talentos de Paulo Betti e Eliane Giardini.

O personagem “João Grilo”, com sua riqueza de construção, é sempre um desafio para os atores talentosos, como é o caso de Paulo Betti e Matheus Natchergale. Ariano que era natural de João Pessoa, filho de João Suassuna que governou a Paraíba e terminou assassinado no Rio de Janeiro, no processo da revolução de 1930. Adotou Pernambuco onde desenvolveu suas atividades estudantis, e sua vida acadêmica. Formado em Direito, recebeu seu primeiro prêmio, “Martins Pena”, pelo “Auto de João da Cruz”. Apesar de dedicar-se à advocacia, jamais abandonou o teatro, arte que teve em seu início a participação de Hermilo Borba Filho, com o qual fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco, sob as bênçãos do Embaixador Paschoal Carlos Magno.

Boa parte de sua obra é deste período, entre as quais podemos destacar os textos: “O Castigo da Soberba”, O Rico Avarento” e o “Auto da Compadecida”, sua obra mais revisitada. Sobre esta peça, escreveria Sábato Magaldi em 1962, tratar-se “do texto mais popular do moderno teatro brasileiro.” Após abandonar a advocacia passa a lecionar na Universidade Federal de Pernambuco, na cadeira de estética, e teve suas peças encenadas em São Paulo pela Companhia Sergio Cardoso: “O Santo e a Porca”, “O Homem da Vaca e o Poder da Fortuna” e, posteriormente “A Pena e a Lei”. Esta peça viria, dez anos depois, receber uma premiação no Festival Latino-Americano de Teatro.

Ainda em companhia de Hermilo Borba Filho, funda o Teatro Popular do Nordeste, cuja primeira montagem foi “A Farsa da Boa Preguiça”, e posteriormente, “A Caseira e a Catarina”. Foi membro fundador do Conselho Federal de Cultura, e em 1970 inicia no Recife o “Movimento Armorial”, cujo projeto estava diretamente vinculado ao desenvolvimento e conhecimento das expressões populares tradicionais.

Foi tema de enredo no carnaval carioca, através da “Império Serrano” e, em São Paulo, pela “Mancha Verde”. Posteriormente a Escola de Samba “Perola Negra”, de São Paulo, desenvolve no sambódromo paulistano a sua mais famosa obra: “O Auto da Compadecida.”

Sua vasta produção literária o levou a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, como também pertencia à Academia Pernambucana de Letras. Com a morte de Ariano Suassuna, perde o Brasil um dos seus mais completos intelectuais. Um vazio difícil de ser preenchido, não apenas por suas atividades culturais e teatrais, mas acima de tudo, por suas características de brasilidade e humanismo.

 João Ubaldo Ribeiro + 18/07/2014

Rubem Alves + 19/07/2014

Ariano Suassuna + 23/07/2014