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Racismo e impunidade

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 31/08/2014 Colunista: Carlos Pinto

Racismo e impunidade

“Quando a verdade é

substituída pelo silêncio,

o silêncio é uma mentira.”

(Yeugeni Yevtuchenko)

 

Esta ocorrência de racismo contra o goleiro Aranha, do Santos Futebol Clube, acontecida recentemente no estádio do Grêmio Porto-alegrense, não é fato isolado. Os insultos racistas contra atletas negros nunca coibidos com o devido rigor, são corriqueiros em nossos estádios e arenas esportivas, razão pela qual são praticados quase que semanalmente.

Recordo janeiro de 1964, quando fui assistir a um jogo entre Santos e Grêmio, em Porto Alegre, pela Taça Brasil, no campo dos gremistas. Estava em viagem pelo Rio Grande do Sul com a perspectiva de me transferir da Refinaria Presidente Bernardes, para uma nova unidade da Petrobrás que estava em construção em Canoas.

Viajava com outro companheiro de empresa, Nelson Rodrigues, e fomos assistir ao jogo acima mencionado. No estádio encontramos o então Prefeito de Santos, José Gomes, acompanhado dos vereadores Gildo Gioia e Silvano de Andrade, além do Rubens Martins Futuro, à época dirigente da Alfândega de Santos.

Iniciada a contenda o Grêmio saiu da frente marcando o primeiro gol, para alegria geral dos gremistas. Só que o Santos contava naquela época com Pelé, Coutinho, Dorval, Mengálvio, Zito entre outros jogadores de destaque. Daí até virarem o jogo para três a um a favor do Santos, foi coisa rápida. Como rapidamente parte da torcida gremista se voltou contra os jogadores e a torcida do Santos.

Da mesma forma como agiram contra o Aranha, se voltaram contra os jogadores negros do Santos, no mesmo estilo cafajeste, racista e covarde. E nós torcedores também recebemos a nossa parte, em forma de pedaços de pau, laranjas e outros “armamentos”. Nem cheguei a ver o fim do jogo, pois resolvi junto com o Nelson cair fora do estádio em direção ao nosso hotel.

Pela manhã fizemos as malas e nos dirigimos para visitar outras cidades, entre elas, Santo Antônio, terra de Joaquim de Campos Leão, o Qorpo Santo, que entrou para a história do jornalismo brasileiro como o primeiro a compor um decálogo ético do jornalista. Além disso, como dramaturgo, foi o criador do teatro do absurdo, muito antes do francês Alfred Jarry, o que detona toda a literatura universal sobre a história do teatro, que atribui ao francês essa criação.

Voltando ao racismo, essa praga universal que hoje encontra eco em algumas torcidas organizadas de clubes do futebol brasileiro, precisa de medidas urgentes para coibi-lo. Não será multando os clubes, ou interditando estádios que se chegará a algum resultado prático. Existem leis e devem ser cumpridas, enjaulando esses cretinos racistas para que paguem por seus crimes, além é claro, de proibir sua entrada em qualquer estádio do país.

Sem medidas radicais no cumprimento das leis em vigor, em breve teremos outros atletas sendo submetidos aos caprichos de meia dúzia de vagabundos, que se acham acima de qualquer suspeita.

(Foto: Diego Guichard/Divulgação)