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Plínio Marcos: quinze anos de ausência

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 29/11/2014 Colunista: Carlos Pinto

Plínio Marcos: quinze anos de ausência

Um povo que não ama e

não preserva as suas formas

de expressão mais autênticas,

jamais será um povo livre.”

(Plinio Marcos)

 

Lá se vão quinze anos que Plinio Marcos nos deixou e passou a habitar outro plano, longe das mazelas às quais se dedicou a denunciar em sua vasta obra, quer seja dramatúrgica, quer seja nos seus contos e artigos publicados na imprensa. Se vivo estivesse, estaria caminhando para completar oitenta primaveras no próximo ano. Eu o conheci na segunda metade dos anos quarenta, no Clube de Regatas Vasco da Gama, levado que foi pelo Professor Elny Camargo, técnico de natação do clube, e que era seu vizinho. Corria o ano de 1946, quando também fui para a equipe de natação desse clube.

Fazia parte também o amigo Iberê Bandeira de Melo, que se notabilizou como advogado de presos políticos durante o regime de exceção. Os dois logo abandonaram essa pratica esportiva, enquanto eu continuei por alguns anos mais. Enquanto Plinio tentou ser jogador de futebol no seu clube do coração, o Jabaquara Atlético Clube, eu passei a jogar bola ao cesto no mesmo clube. Plinio enveredou para o picadeiro do Pavilhão Teatro Liberdade, onde foi descoberto por Patrícia Galvão que o levou para o teatro.

Em 1959 arrepiou a plateia do II Festival Nacional de Teatro de Estudantes, produzido e coordenado pelo Embaixador Paschoal Carlos Magno, com uma apresentação de seu primeiro texto: “Barrela”. Esse Festival que se realizou em Santos, revelou além dele, outras figuras de proa do teatro brasileiro, entre as quais posso citar Fernando Peixoto, Amir Haddad, José Celso Martinez Correa, Etty Fraser, Renato Borgui, entre outros. Seu texto, violento para uns, e realista para outros, denunciava as mazelas que ocorriam, e ainda ocorrem, nas prisões brasileiras.

Ganhou calorosos elogios de Patrícia Galvão, e o incentivo para que escrevesse novos textos. Essa mesma Pagú que mais tarde viria a criticar acidamente, um novo texto que, foi sendo aprimorado, inclusive no nome, que é a “Jornada de um imbecíl até o entendimento”. Houve um princípio de atrito entre os dois que o tempo se encarregou de aplainar. E na sequência Plinio resolveu ganhar novos ares mudando para a Capital. Mas antes ainda dirigiu a única peça para adultos escrita por Oscar von Pfhul, “O Incêndio de Roma”, que representou Santos no III Festival Nacional de Teatro de Estudantes, realizado em Porto Alegre.

Trabalhou no Teatro de Arena e com Cacilda Becker, além da TV-Tupi, onde fez uma das melhores novelas brasileiras: “Beto Rockfeller”, ao lado de Luis Gustavo, o “Tatá”. Passou por poucas e boas e parte da sua renda vinha da venda de livros que fazia nas portas dos teatros, ou nos bares do centro de São Paulo. A fama veio com os espetáculos “Dois Perdidos numa Noite Suja” e “Navalha na Carne”, traduzidas inclusive para outros idiomas e com montagens em vários países. As homenagens que hoje se prestam a ele são por demais merecidas, pois em minha opinião sua obra permanece atualíssima, diante dos desmandos políticos, sociais e econômicos que hoje observamos neste país.

Glória a Plinio Marcos, o autor que soube como ninguém, traduzir a desesperança de um povo desvalido, abandonado e espoliado por sua classe política.