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O silencio final de Vanja Orico

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 01/02/2015 Colunista: Carlos Pinto

O silencio final de Vanja Orico

O homem só envelhece,

quando os lamentos

substituem seus sonhos.”

(Provérbio Chinês)

 

A vida de Vanja Orico, pode ser descrita em duas fases distintas: a atriz e cantora, e a ativista política durante os anos de chumbo.  Vanja, nascida Evangelina Orico, filha do diplomata, acadêmico e escritor paraense, Oswaldo Orico, foi descoberta para as artes cênicas por Federico Fellini e Alberto Lattuada. Foi a única brasileira a trabalhar com estes cineastas italianos, pois em 1952, quando atuava em Roma no show “Macumba”, foi descoberta por eles para atuar no filme “Mulheres e Luzes”, onde cantava o tema folclórico “Meu Limão Meu Limoeiro”.

Vanja Orico estudou música em Roma, e quando voltou ao Brasil, atuou em vários filmes, entre os quais “Lampião Rei do Cangaço”, de Carlos Coimbra, onde contracenou com Leonardo Vilar. Em 1953, é selecionada por Lima Barreto para o filme “O Cangaceiro”, vencedor do Prêmio de Melhor Filme de Aventura no Festival de Cannes daquele ano. Nele, Vanja interpretava o clássico do cancioneiro popular “Mulher Rendeira”. Com Fellini e Lattuada atua em “Lucci Del Variata” e, com Robertis, em “Yalis – A Flor das Selvas”.

 Sobre ela, Heitor Villa-Lobos escreveu: “Os cinco rivais da moreninha, bem brasileira, Vanja Orico: o canário – que aprende com os mestres; o coleiro – que canta nas alvoradas; a araponga – que imita os ferreiros do sertão; o sabiá – que sonoriza as florestas do Brasil, e o tico tico – que espalha fubá.” Tempos depois, Jorge Amado descreveria sobre ela: “Vanja Orico, cantora, artista, cineasta, atuante figura cultural brasileira, presença que se impõe à admiração de todos que amam a arte, a literatura e a democracia.”

Como cantora fez muito sucesso nos anos 50 e 60, com turnês pelos Estados Unidos, Europa, América Latina e África. Como cineasta dirigiu o filme “O Segredo da Rosa”. Esta paixão pelo cinema ela repassou a seu filho Adolfo Rosenthal, um dos cineastas brasileiros da atualidade, fruto de seu casamento com o engenheiro francês André Rosenthal.

Por seu trabalho em vários filmes sobre a vida de cangaceiros, Vanja recebeu o título de musa do “Ciclo do Cangaço”. Seu trabalho cinematográfico está em mais de vinte películas, nacionais e estrangeiras, entre elas: “Independência ou Morte” e “Ele, o Boto”. Além de seu trabalho artístico, Vanja Orico foi militante política ativa na luta pela volta da democracia. Foi presa e torturada depois de tentar interromper a ação policial durante o enterro do estudante Edson Luiz, morto pela repressão no Calabouço. Aos gritos de “não atirem, somos todos brasileiros”, ela enfrentou a tropa que tentou em vão, dissolver a passeata com o caixão do estudante.

Um exemplo para os brasileiros de hoje, apáticos diante dos desmandos desse desgoverno que conduz o Brasil para o caos. Muita luz para Vanja Orico, cuja voz silenciou para sempre.