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O Ponderosa e a nova esquerda festiva - I,

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 12/05/2015 Colunista: Carlos Pinto

“A vida que não passamos

em revista, sem reflexão,

não vale a pena viver.”

(Sócrates)


O Ponderosa era um restaurante situado na confluência da Av. Ana Costa com a Rua Tolentino Filgueiras, no coração da Cinelândia santista. Seu proprietário, Demétrio, era um espanhol anarquista que veio parar em Santos salvando-se da ditadura franquista. Era um casarão antigo, com um imenso salão anexado, construído no que era o quintal do referido casarão. Tornou-se em pouco tempo o ponto de encontro de artistas ligados ao teatro, cinema e literatura, além dos envolvidos em política, notadamente ligados a partidos de esquerda.

O Demétrio tinha verdadeira aversão aos que a gente chamava de esquerda festiva, hoje travestidos em esquerda caviar, adoradores de um bom uísque escocês e saborosos quitutes da gastronomia espanhola. Mas o Demétrio não fazia questão da presença deles, e sempre     que podia dava um jeito de espantá-los. Conhecedor dos meandros da vida, com uma vivência de fazer inveja, ele sabia que tais personagens não eram confiáveis.

A frequência do Ponderosa era a mais eclética possível. Normalmente passava por lá todas as noites para encontrar amigos, e trocar ideias sobre a situação do País, então vivendo os chamados anos de chumbo. Outro assíduo frequentador era o Maurice Legeard, fundador do Clube de Cinema de Santos e depois, da Cinemateca. Francês de nascimento radicou-se em Santos onde desenvolveu um belíssimo trabalho através das entidades acima mencionadas.

Invariavelmente, todas as noites, o Maurice tomava um porre homérico e daí até arrumar uma encrenca, demorava pouco. Várias vezes fomos levá-lo em casa para salvá-lo de qualquer agressão por parte das pessoas a quem desafiava. Era outro anarquista que levava seus ideais às raias da inconsequência, apesar de todo o respeito que nós nutríamos por ele. Maurice faz parte da história cultural e política desta cidade, muito embora a cidade nunca tenha lhe dedicado o respeito e admiração que sempre mereceu. No limiar dos 90 anos de nascimento de Maurice, comemorados em 28 de abril, seus amigos preparam homenagens a este homem, que durante a vida nunca recebeu das autoridades municipais, a ajuda e colaboração que merecia.

As noites do Ponderosa eram animadas, pois além da boa comida, haviam os debates sobre cultura e política, que pululavam de mesa em mesa. Um cidadão que em algumas oportunidades apareceu por lá era o Zé Dirceu, então Presidente da União Estadual de Estudantes, até que foi apeado do cargo pela Catarina Meloni. Conseguia convencer os membros da festiva, mas não encontrava eco na maioria que não tinha a intenção de mudar o País, em mesas de bar. Na continuidade em próximo comentário, relembrarei outros aspectos que envolvem a campana que os membros do antigo DOPS, faziam no local.