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O Ponderosa e a nova esquerda festiva – II

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 17/05/2015 Colunista: Carlos Pinto

“Aprendi com as primaveras

a me deixar cortar para

poder voltar inteira. ”

(Cecilia Meireles)

 

O Ponderosa era um dos redutos mais “fiscalizados” pela polícia política. Nós, frequentadores assíduos, conhecíamos quase todos pois viravam figurinhas carimbadas, fazendo anotações para seus relatórios. Eram chefiados pelo Dr. Paulo Furquim de Almeida, que por vezes também aparecia por lá. Trajava sempre um terno marrom, e era uma figura que lembrava muito aquele detetive do seriado “Columbo”, com seu indefectível cachimbo.

Certa vez, estávamos no salão dos fundos comemorando o Natal, enquanto do outro lado da calçada, um grupo de investigadores do DOPS, juntamente com o Dr. Furquim, nos observavam. Todos os anos o pessoal do meu grupo, o Teatro Estudantil Vicente de Carvalho, fazia um almoço de confraternização no Ponderosa. Lá pelas três da tarde, o Dr. Furquim veio até a porta e me chamou. Queria saber se nós íamos demorar muito pois eles também queriam fazer a confraternização de Natal, e segundo ele, não pegava bem dividir o local com um bando de comunistas.

E assim, tivemos que encerrar nossa festa com alguns minutos de antecedência, para evitar um desagradável desfecho em pleno Natal. Quando saíamos, fomos agraciados com um “muito obrigado” pelo referido delegado. Essa fiscalização sobre o Ponderosa tinha lá seus motivos.Apesar da esquerda festiva, que fazia muito barulho, mas na hora de agir corria para casa, vários companheiros acabaram por se envolver na luta armada e terminaram mortos pela repressão.

Mas o Ponderosa não era o único ponto na Cinelândia santista, visado pelo DOPS. Em frente ao restaurante, do outro lado da avenida havia o Cine Iporanga, e no térreo uma livraria que levava o nome do cinema. Essa livraria pertencia a Álvaro Bandarra, dirigente regional do PCB, que acabou preso, e torturado nas celas do DOI-CODI. Era amigo de Bandarra e com ele fiz parte do governo do Prefeito Oswaldo Justo, um exemplo de administração para a cidade.

Mas voltando ao Ponderosa, o local tornou-se o ponto de reunião de artistas e intelectuais, a partir do fechamento do Bar Regina, um reduto comandado por Patrícia Galvão, Narciso e Nelson de Andrade, entre outros. Muitos espetáculos teatrais da chamada era de ouro do teatro santista, foram elocubrados, planejados e realizados, a partir de reuniões que realizávamos no restaurante. Diretores do porte de Paulo Lara, Paulo Jordão, Walter Rodrigues, Wilson Geraldo e Nélio Mendes, eram também assíduos frequentadores do Ponderosa.

Ali foram gestadas grandes produções dirigidas por esses mestres, bem como por Afonso Gentil, Yolanda Amadei, Emilio Di Biase, Roberto Lage, José de Anchieta e Murilinho Alvarenga, que muito embora morassem em São Paulo, eram contratados pelo Teatro Estudantil Vicente de Carvalho para trabalhar com o grupo.

Na sequência destes comentários sobre o Ponderosa, para finalizar a série, vamos relembrar a fase final do Ponderosa, seu fechamento e o retorno de Demétrio para a Espanha, e a nova esquerda festiva que hoje revive através do facebook.