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O Ponderosa e a nova esquerda festiva – III

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 18/05/2015 Colunista: Carlos Pinto

“Não corrigir nossas faltas,

é o mesmo que cometer

novos erros. ”

(DA)

 

 O Ponderosa também era reduto de jornalistas, e um dos grandes frequentadores era o Fernando Allende, amigo do Demétrio, com quem sempre manteve fraterna amizade. Além dele tinha o Roberto Peres, editor de variedades do extinto jornal Cidade de Santos, de saudosa memória, e muitos mais. Noemi Macedo também frequentava o local. Além de jornalista, era participante do teatro amador santista. A esquerda festiva que por lá frequentava era diferente da “festiva” de hoje. Não existiam os meios de comunicação que hoje proporcionam as redes sociais, onde é mais fácil e seguro, praticar arroubos próprios da alienação reinante.

Mas em ambos os casos, creio que a reação será a mesma, quando ocorrer um primeiro tiro da repressão. Correr para debaixo da cama ou da saia da mamãe. Atrás de uma tela de computador é facílimo propor o anarquismo, o desrespeito à luta dos que no passado sofreram nas masmorras de um regime de opressão. Mas quando o bicho pega, tenho a certeza de que entregam o ouro antes do primeiro tapa.

Mas vamos ao que interessa. Do salão do Ponderosa saíram grandes projetos teatrais e belíssimas programações do Clube de Cinema, do Maurice Legeard. Era também o ponto de encontro de todas as noites, durante os festivais de teatro e de música que ocorriam na cidade por essa época. Amadores teatrais de outras cidades, sempre que vinham a Santos, faziam do Ponderosa a sua casa. Ângelo Bonicelli, Homero Buffalo, Hamilton de Lima Neto, Humberto Sinibaldi, para citar alguns, frequentaram o local com muita assiduidade.

Mas o progresso também levou de roldão o casarão onde esse restaurante funcionava, cedendo lugar ao edifício que lá se encontra. Demétrio fechou o Ponderosa e voltou para a Espanha, mais propriamente para sua cidade, Fonda Manau, distante uns oito quilômetros de Barcelona. Retornou a Santos para visitar os amigos em uma passagem rápida. Soubemos que faleceu a uns quatro a cinco anos atrás. Mas deixou a sua marca nesta cidade, pelo apoio que sempre dedicou às causas santistas e a cultura da cidade.

Com o fechamento do Ponderosa, os amadores teatrais passaram a frequentar o Lanches Sical, na esquina da Rua Pernambuco com Floriano Peixoto. O Artur, dono do bar, era um português muito alegre, que dividia uma sociedade com um irmão. Recentemente quando estive em Portugal, mais propriamente na vila de Alvarenga, soube que ele havia retornado para lá. Estive inclusive na porta da casa onde mora, mas não me atrevi a bater. Soube minutos antes, que ele estava muito doente.

A verdade é que esses três locais fazem parte da história da cultura santista: Bar Regina, Restaurante Ponderosa e Lanches Sical. Foram tradicionais redutos onde os artistas da cidade se reuniam e discutiam seus projetos, sempre com a colaboração de seus proprietários. Infelizmente o tal de progresso vai dizimando esses pontos de encontro. Mas outros virão e com certeza jamais apagarão o brilho dos acontecimentos ocorridos no Sical, no Regina e, principalmente no Ponderosa.