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Clovis Bueno e a memória santista

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 28/06/2015 Colunista: Carlos Pinto

 

“Seremos conhecidos

para sempre, pelas

pegadas que deixamos. ”

(Proverbio dos índios Dakotas)

 

O falecimento do cineasta Clovis Bueno, recentemente, expõe mais uma vez a falta de memória da cultura santista, notadamente dos órgãos de comunicação. Nascido em Santos nos idos de 1940, Clovis Bueno mudou-se para São Paulo no principio dos anos 60, para cursar a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, onde faz seus primeiros contatos com o movimento estudantil e o teatro de vanguarda. Abandona o curso e passa a fazer teatro como ator, passando posteriormente para as funções de diretor, cenógrafo e figurinista, durante os anos 60 e 70.

 

Como participante do teatro trabalhou em pelo menos vinte e sete espetáculos, como diretor, ator, cenógrafo e figurinista. Seu primeiro trabalho foi no texto de Augusto Boal, “José, do parto a sepultura”, que teve a direção de Antônio Abujamra. Com este diretor trabalhou pelo menos em cinco montagens, tendo também trabalhado sob a direção de José Renato, Walmor Chagas, Amir Haddad, Paulo Betti e Ziembinski.

 

Os autores teatrais cujas obras ajudou a colocar em cena, vamos encontrar Dias Gomes, Lope de Vega, Bertolt Brecht, Ariano Suassuna, Leilah Assumpção e Plinio Marcos, entre outros. Em “Fala baixo senão eu grito, de Leilah Assumpção cuja montagem dirigiu, foi o espetáculo mais premiado de 1969.

 

A partir de 1976 passa a se dedicar ao cinema na função de diretor de arte, no filme “O pai do povo”, que teve a direção de Jô Soares. Na sequência participou de importantes filmes da nossa cinematografia, entre os quais: “Pixote: A lei do mais fraco”, de Hector Babenco, com quem trabalhou também nos filmes: “Brincando nos campos do Senhor” e “O beijo da mulher aranha”. Em 2001 recebeu o Grande Prêmio Cinema Brasil, como melhor diretor de arte, por seu trabalho em “Castelo Rá-Tim-Bum”. Um de seus últimos trabalhos foi, além da direção de arte, cenografia e figurinos, a codireção com Paulo Betti, do filme “Cafundó”.

 

Ao todo, Clovis Bueno trabalhou em torno de 40 filmes, inclusive produções internacionais como “Le Jaguar”, de Francis Veber e, “O incrível Hulk”, de Louis Leterrier, na parte em que estes filmes foram rodados no Brasil.

 

Por volta de 2005 Clovis Bueno esteve comigo na Secretaria de Cultura de Santos. Veio visitar familiares e também, procurar locações para o filme “Cafundó”. Esta produção a partir de um texto de Paulo Betti, versava sobre a vida de um personagem de Sorocaba, praticante de uma religião que havia criado, e que passava de três a quatro meses em Santos, se reciclando em terreiros de umbanda e tendas de espiritismo.

 

Ficou na cidade por uns três dias, nos quais percorremos vários locais do município, na busca de locações apropriadas. O filme acabou sendo rodado em uma cidade do Paraná, que ofereceu melhores condições para realização da produção. Este filme recebeu os prêmios de melhor ator (Lázaro Ramos), melhor fotografia, melhor direção de arte (Clovis Bueno) e o prêmio especial do júri, no Festival de Gramado. Foi a última vez que estive com Clovis Bueno. Agora veio a notícia do seu falecimento no Rio de Janeiro, aos 74 anos de idade. Foi velado e cremado no Memorial do Carmo, na Zona Norte do Rio. Não mereceu uma única nota por parte de todos os órgãos de comunicação de Santos.