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Solidariedade e a omissão humana

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 30/09/2015 Colunista: Carlos Pinto

“Hoje sei muito bem que nada

na vida repugna tanto ao homem,

do que seguir pelo caminho que

o conduz a si mesmo. ”

(Herman Hesse)

 

Quando garoto passava alguns dias das minhas férias em uma chácara em São Roque. Era um tipo de pousada que pertencia a uma senhora de nacionalidade húngara, que havia imigrado para o Brasil fugindo dos horrores da segunda guerra mundial. Muito embora seu país fosse simpatizante e até aliado dos nazistas de Hitler, ela buscou refúgio em um lugar mais calmo e tranquilo em terras brasileiras.

Hoje, quando olhamos para o quadro de milhares de refugiados que buscam sobreviver aos crimes de guerra praticados pelo chamado Estado Islâmico, e observamos a atitude do governo e do povo da Hungria, somos obrigados a constatar que o nazismo não foi extirpado na formação daquele povo. A atitude daquela cinegrafista de uma emissora de televisão é um retrato vivo da falta de solidariedade humana. Foi demitida da emissora em que trabalhava, e daí?

Outro fato ocorrido na sequência foi a construção de um novo muro da vergonha, para evitar que os refugiados penetrassem na Hungria, e uma outra cena chocante  a dos soldados húngaros atirando pedaços de pão para os famintos refugiados. Um tratamento desumano como a demonstrar que a omissão e a aridez humana fazem parte do caráter de um povo chefiado por um governo totalmente distante daquilo que se possa entender como humanidade.

Aliás essa coisa de se construir muros para afastar o povo anda se tornando corriqueira. Vimos isso aqui em Brasília durante as celebrações do Dia da Independência. Deve ser uma saudade imensa do fatídico Muro de Berlim. Durante os anos de duração da segunda guerra mundial o Brasil foi pródigo em receber milhares de europeus, de várias nacionalidades, que aqui procuravam abrigo e ajuda. Todos eles contribuíram para a construção e progresso do nosso país.

Na área cultural fomos aquinhoados com as contribuições do polonês Ziembinski, do francês Maurice Vaneau, e dos italianos Ruggero Jacobi, Aldo Calvo, Adolfo Celi, Bassano Vaccarini, entre outros. Se em alguma coisa teremos que ser gratos a essa segunda guerra foi exatamente a solidariedade que prestamos ao receber os refugiados que aqui aportaram, e que nos retribuíram com seu trabalho, dedicação e esforço, no sentido da construção da pátria brasileira.

Ao verificar as atitudes do povo e do governo da Hungria posso perceber que se a Dona Vera, aquela húngara da chácara de São Roque, não tivesse recebido a acolhida que teve em nosso país, o que seus descendentes estariam falando dos brasileiros? Mas assim caminha a humanidade.