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Um samba enredo de araque

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 19/10/2015 Colunista: Carlos Pinto

“Cuidado com o medo.                                                                                                                                                   Ele adora roubar sonhos. ” (DA)

 

O samba enredo a embalar o desfile da que vai deslizar no sambódromo carioca uma pretensa história da cidade de Santos, é realmente muito pobre. Nos parece que os autores do samba vencedor, fizeram uma tremenda confusão entre a cidade e o Santos Futebol Clube. E se a totalidade do enredo a ser desenvolvido enveredar por essa confusão, estaremos diante de uma troça carnavalesca.

Quando ocupei a Secretaria de Cultura de Santos, recebi variadas propostas de agremiações carnavalescas do Rio de Janeiro e de São Paulo, e nunca me encantei por nenhuma. Sempre priorizei o carnaval da cidade, e procurei dentro do possível fortalecer as agremiações santistas. Mas o que me chama a atenção neste samba enredo vencedor, é a falta dos elementos históricos que decididamente criam um vínculo com Santos e sua participação na vida nacional.

Não dá para se compor um samba desta categoria, onde figuras clássicas da nossa história sejam simplesmente esquecidas. Não se fala em José Bonifácio de Andrada e Silva, não se citam figuras emblemáticas como o Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão e nem mesmo o fundador da cidade, Brás Cubas, é lembrado. Para o cidadão que elaborou a sinopse, Santos se resume a Pelé, Neymar e o glorioso alvinegro da Vila Belmiro.

A participação da cidade na luta abolicionista não é lembrada, e com isso o Quilombo do Jabaquara e o do Pai Felipe, considerados de muita importância na luta contra a escravatura, foram para as calendas gregas. Quintino de Lacerda, o criador do Quilombo do Jabaquara, era um negro alforriado, natural de Sergipe, que chegou a abrigar em suas terras em torno de dez mil escravos fugitivos. Junto com Santos Garrafão e seu Quilombo, foram lutadores pela libertação dos negros escravizados, assim como no Quilombo do Pai Felipe, que ocupava as terras onde hoje está instalada a Companhia de Engenharia de Tráfego.

E o Padre Bartolomeu de Gusmão, conhecido como Padre Voador, que saiu de Santos para estudar no Seminário de Belém, na cidade baiana de Cachoeira, onde realizou seus primeiros inventos. Foi o primeiro brasileiro a ter um invento patenteado, através de um “aparelho que para fazer subir água a toda distância e altura que se quiser levar”. Que em Portugal solicitou patente para “um instrumento para se andar pelo ar”, o que mais tarde se revelaria ser um balão ou aeróstato.

E José Bonifácio, nosso Patriarca da Independência que se tornou filósofo, advogado, professor, político e cientista. Que combateu Napoleão Bonaparte quando este tentou invadir Portugal, um cidadão do mundo com monumentos em sua homenagem em vários países, em função das suas especialidades em mineralogia, entre outros atributos. E o fundador da cidade, Brás Cubas? E tantos outros personagens da nossa história, como é o caso do Visconde de São Leopoldo.

O autor da sinopse para o citado samba enredo escorregou na maionese, e levou os compositores a cometer essa idiotice com a qual pretendem homenagear a cidade de Santos. Da mesma forma, está faltando transparência na questão pecuniária que envolve o montante de dois, ou de quatro, ou talvez seis, e falam até em oito milhões de reais, que vão patrocinar a referida troça carnavalesca. Em época de crise econômica, convenhamos, o fato em questão se avizinha a um escárnio para com a população carente de nossa cidade.