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As mágoas e amores de J.C. Lobo

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 23/10/2016 Colunista: Carlos Pinto

As mágoas e amores de J.C. Lobo

“Eu dominei Pelé. Ninguém

conseguiu pegar Pelé como

eu dentro do meu trabalho.

Aquilo virou religião. ”

(J. C. Lobo)

 

O Lobo era uma visita constante em meu gabinete, ao longo do tempo em que ocupei a Secretaria de Cultura de Santos. Em dezembro de 2004, patrocinamos uma exposição das charges de Pelé, na Galeria de Arte Brás Cubas, mostra essa composta de 85 trabalhos que, da diversão à irreverência, marcaram os momentos importantes da carreira do maior jogador de futebol do mundo. Boa parte desses trabalhos foram publicados em A Tribuna e Cidade de Santos, onde Lobo desempenhou suas funções de chargista oficial.

Pelé não apareceu durante o período dessa mostra, nem mesmo, dirigentes do alvinegro. De certa forma, uma das mágoas deste artista de raro talento, era essa forma de desprezo tanto do Pelé, quanto da direção do Santos Futebol Clube. Mágoa essa que o levou a deixar de torcer pelo time da Vila Belmiro, e passar a admirador do São Paulo Futebol Clube.

Nem sempre os protagonistas das charges, entendem seu significado, e se deixam levar por caminhos que conduzem suas mentes poluídas para a inimizade gratuita.

A charge por si só, é uma forma de ilustração cuja finalidade principal é a satirização através de caricaturas, de personagens públicas, envolvidas ou não, em algum fato atual. Lobo tinha a mania de ilustrar a caricatura do ex-Prefeito Oswaldo Justo, com um ramo de planta no nariz. A mãe do Justo, pegava corda quando via uma dessas charges, mas o próprio nunca se incomodou. Sabia que era uma alusão ao fato de ser um defensor do meio ambiente e da natureza.

A pedido do artista, consegui uma verba para adquirir para o Museu da Imagem e do Som, todos os originais das charges em que o ex-Prefeito foi aquinhoado, como uma forma de garantir para a posteridade um acervo rico e inigualável. Da mesma forma, tenho comigo os originais de todas as charges, e foram muitas, em que fui protagonista do meu amigo Lobo.

De uma certa forma, a cidade de Santos sempre foi a capital nacional das HQ e, por que não dizer, de grandes chargistas. Tivemos o Dino, em A Tribuna, assim como Lobo, sempre procuraram uma união e entrosamento entre a imagem desenhada, e o texto. Um trabalho que segue através de Seri, hoje no Diário do Grande ABC. Não se atinham unicamente ao impacto da imagem. Para Lobo, seu trabalho era elaborado com muito amor e dedicação, trabalhos esses que emolduraram edições do Diário do Litoral, sua última casa profissional.

Muitos companheiros da imprensa lamentaram seu falecimento, e honraram sua despedida com merecidos adjetivos. O Santos Futebol Clube soltou uma nota lamentando o falecimento. Pena que no passado se esqueceram de ajuda-lo quando mais precisou. A cidade perdeu um grande e talentoso artista.

 

(foto de J.C. Lobo no "Diário do Litoral", último jornal para o qual contribuiu com sua arte)