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Ruth Escobar: entre a lenda e a realidade

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 09/10/2017 Colunista: Carlos Pinto

Ruth Escobar: entre a lenda e a realidade

 “Há pessoas que transformam o

sol numa simples mancha amarela,

mas há também aquelas que fazem

de uma simples mancha amarela

o próprio sol.”

(Pablo Picasso)

 

Conheci Ruth Escobar, no início dos anos setenta, quando acabava de ser nomeado para a Comissão Estadual de Teatro, na vaga aberta com a demissão de Aracy Balabanian. Vinha precedida de uma fama que, com o passar dos tempos e um relacionamento quase que diário, fez com que essa lenda criada por maledicências ou invejas, fosse dissipada. Com o tempo tornou-se uma grande amiga dos amadores teatrais, principalmente com o companheiro Ângelo Bonicelli, que a convite seu foi receber Jean Genet no aeroporto de São Paulo.

Sua trajetória no cenário teatral lhe confere lugar de destaque no teatro brasileiro e internacional. Após os cursos de interpretação realizados na França ao final dos anos cinquenta, retorna ao Brasil e monta sua própria companhia, em parceria com Alberto D´Aversa. Após algumas montagens, entre as quais “Mãe Coragem” de Brecht, e “Males da Juventude”, de Bruckner, ambas com direção de D´Aversa, em 1961 estreia “Antígone América”. A partir de 1964 decide concretizar um projeto de teatro popular, com a adaptação de um ônibus transformado em palco, e passa a levar teatro para a periferia de São Paulo.

Esta iniciativa que tinha o nome de Teatro Popular Nacional, teve como um de seus diretores o Antonio Abujamra, que dirigiu “A Pena e a Lei”, de Suassuna e, Silnei Siqueira, que encenou “As Desgraças de uma Criança”, de Martins Pena. Este projeto durou apenas um ano, já que Ruth estava envolvida em um projeto maior, qual seja o de edificar sua própria casa de espetáculos. Ainda em 1964 iria inaugurar seu Teatro Ruth Escobar, no bairro da Bela Vista.

Entre as obras encenadas por Ruth Escobar, salientamos “A Ópera dos Três Vinténs”, de Brecht, com direção de José Renato. Jô Soares dirige em 1965, “O Casamento do senhor Mississipi”, de Durrenmatt e Maurice Vaneau se encarrega da direção de “Lisistrata”, de Aristófanes. Tivemos também “O Versátil Mr. Sloane” de Joe Orton, dirigido por Antonio Ghigoneto. Mas as montagens de “O Balcão”, de Jean Genet e, “Cemitério dos Automóveis”, de Arrabal, com direção de Victor Garcia, deram a Ruth Escobar os mais variados prêmios, entre eles o Roquete Pinto, como personalidade do ano.

Realizou os Festivais Internacionais de Teatro e, criou polêmicas com a produção de “Missa Leiga” de Chico de Assis, que foi proibida de utilizar a Igreja da Consolação como palco, e acabou encenada em uma fábrica. Outra, envolveu a encenação de “A Viagem”, de Carlos Queiroz Telles, em uma adaptação de “Os Lusíadas” de Camões, em cuja estreia esteve presente o primeiro ministro de Portugal, Marcelo Caetano.Alguns tópicos para relembrar o trabalho desta mulher, que além de tudo ainda achou tempo para se envolver com a política e ser eleita Deputada Estadual em duas legislaturas. Teve seu teatro invadido pelo CCC – Comando de Caça aos Comunistas, que devastaram o palco, a plateia e os camarins, com sua fúria retrógrada, onde ninguém foi preso, com exceção da própria Ruth e da Marilia Pera. Era um sinal dos tempos de trevas.

Em nome dos amadores teatrais de sua época, rendo minhas homenagens a esta mulher que nunca esmoreceu diante das adversidades e das pressões a que foi submetida. Que descanse em paz, e que sua obra nunca seja esquecida.(Foto: Divulgação)