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A Cultura sufocada

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 22/12/2017 Colunista: Carlos Pinto

 

“Aprendi com as primaveras

a me deixar cortar para poder

voltar inteira.”

(Cecilia Meireles)

Desde sempre tive a convicção de que a pior censura que se pode ter, na área cultural, é a censura econômica. Mesmo nos tempos do regime militar, quando a censura era draconiana, existiam formas de dribla-la de acordo com a criatividade e o talento de cada artista ou diretor de cena. Mas com a censura econômica ainda não inventaram formas de contorna-la. É nefasta, dilapidadora da criação, fomentadora do nascimento de pseudos artistas, sejam cantores, compositores, atores e encenadores. Pabllo Vittar que o diga.

Hoje os estados e municípios dispensam qualquer arremedo de política cultural. O governo federal tem um boneco de plantão ocupando o Ministério, totalmente apartado da classe cultural brasileira, enquanto aprova milhões para uma “artista” americana que pratica uma tal de arte invisível. Como invisível estão os bilhões de reais que nos foram roubados por membros dos governos, aliados com seus comparsas do Congresso Nacional.

Fecham-se teatros, liquidam com orquestras sinfônicas e corpos estáveis de dança, em nome de uma retenção econômica que futuramente será desviada para alguma conta particular no exterior. Não se vêm obras em favor da sociedade, e muitas que são iniciadas, nunca chegam ao seu fim. O dinheiro é pouco para tanta safadeza praticada por políticos inescrupulosos, que não merecem cadeia, mas sim, a forca. Eu tinha um professor que dizia sempre que, a corda da forca, serve a vários pescoços, portanto, é mais econômica.

O Brasil, é seguramente o país mais rico em matéria de folclore, a raiz cultural de qualquer nação que se preze. De norte a sul ou de leste a oeste desta imensa nação, em cada canto nasce um item folclórico que representa a cultura popular daquela região. São para mais de cem tipos de Bumba Meu Boi, muitos dos quais podiam ser vistos anualmente no Festival de Folclore de Olímpia, que era patrocinado pelo Governo de São Paulo. Foi definhando, definhando, e hoje nem se fala dele, e nem sei se ainda existe. Era o maior evento brasileiro dessa raiz cultural, e talvez um dos maiores do mundo.

É forçoso reconhecer que durante o regime militar, lutávamos contra a censura imposta por “burrocratas” que se importavam até com a colocação de uma vírgula, ao tempo em que tentavam prender dramaturgos falecidos a mais de cem anos. Mas não faltavam recursos para a produção cultural, principalmente em São Paulo, que teve seu auge no patrocínio cultural durante o governo de Roberto Costa de Abreu Sodré.

Existia um Conselho Estadual de Cultura e várias comissões em cada área da produção cultural, formadas por representantes dos vários segmentos culturais. Projetos eram analisados e posteriormente votados para a concessão de verbas públicas, sempre com contrapartidas para atender os setores da população de baixa renda e as cidades do interior do Estado. E hoje? A Secretaria de Cultura do Estado, assim como muitas nos vários municípios paulistas onde ainda existam, são moeda de troca na maldita barganha política, e normalmente ocupadas por jejunos na área cultural.

O dramaturgo Plinio Marcos, sempre afirmou um conceito que continua válido nos tempos atuais, assim como toda a sua obra será válida enquanto persistirem as desigualdades sociais. “Um povo que não ama e não preserva as suas formas de expressão mais autênticas, jamais será um povo livre.”