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Os velhos baianos no Rio-Santos Bossa Fest

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 27/01/2018 Colunista: Carlos Pinto

 “A música pode fazer pela

alma o que nenhuma

atividade perceptível aos

sentidos pode realizar.”

(El Morya)

 

         O produtor Cassio Laranja, brinda a cidade de Santos, com mais uma edição do Rio-Santos Bossa Fest, um evento que já se tornou tradição na cidade, e que revive as glórias de um grande momento da música popular brasileira, que foi a bossa nova. Revisitar as canções composta por Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, João Gilberto e outros tantos mestres da nossa música, nos faz esquecer estes tempos em que a música popular brasileira passa por um período negro de criatividade, de bons intérpretes e compositores.

Em minhas andanças por este País, nos anos sessenta e setenta, acompanhei toda a evolução deste ritmo musical, cuja criação é atribuída a Dorival Caymmi e João Gilberto, por uns, enquanto para outros o Johnny Alf, tem tudo a ver com a questão. Mas tudo isso pouco importa, pois o que vale, é que a bossa nova abriu o cenário internacional para a música brasileira.

Me acostumei a ver o Johnny Alf, em suas apresentações no Juan Sebastião Bar, em Sampa, assim como, as apresentações nas boates cariocas da época, já que fui assíduo frequentador do Arpeje, de Waldir Calmon, e do Sachas, onde assisti apresentações memoráveis de Maysa Matarazo. A noite carioca me proporcionou conhecer Vinicius de Moraes, Edú Lobo e tantos outros.

Portanto, revisitar nas apresentações de Paulo Costta e Danilo Caymmi, tantos sucessos daquela época de ouro, foi um retorno ao passado. Ouvir “Manhã de Carnaval” e “Felicidade”, duas obras primas de Vinicius e Antonio Maria, que ilustraram musicalmente o filme “Orfeu no Carnaval”, um belo filme de Camus, com o bicampeão olímpico de salto triplo, Ademar Ferreira da Silva, vivendo o personagem principal: Orfeu, não tem preço. Foi simplesmente mágico.

Quando abro este comentário falando dos velhos baianos, me refiro ao estado de nascimento de Paulo Costta e Danilo Caymmi, muito embora conste que Danilo é carioca. Mas isto pouco importa, pois, o principal está no talento e na interação que mantém com seu público, com simplicidade, sem vaidades exóticas, e fazendo história em nossa música popular brasileira. A apresentação de Paulo Costta, no Teatro Coliseu foi esplêndida, inclusive com a aula que nos proporcionou sobre a história da bossa nova. Quanto a Danilo Caymmi, sua apresentação no Teatro do SESC, ao lado do magistral maestro e pianista Marinho Boffa, dispensa comentários. Domina o público e intercala as músicas com comentários sobre passagens suas e de membros de sua família, com um grande senso de humor.

E a mim agora cabe uma pergunta: o que foi que aconteceu com a música popular brasileira, que além dos compositores antes citados, tivemos uma Dolores Duran, Chico Buarque, Paulo Vanzolini, e tantos outros, que imortalizaram canções, simplesmente se perdeu? Somos obrigados agora a ouvir aberrações musicais que nos são impostas pelas rádios e redes de televisão, sem o mínimo de criatividade, apelativas, com letras idiotas que ofendem a língua de Camões.

Razão pela qual, nós santistas, temos que ser gratos ao Cassio Laranja, que anualmente nos proporciona a oportunidade de rever e ouvir os grandes sucessos proporcionados pela bossa nova, com seus criadores e intérpretes, como a nos dizer que éramos felizes e não sabíamos. Infelizmente o Brasil está descendo a ladeira em todos os sentidos, inclusive em nossa MPB. Parabéns ao Danilo Caymmi e ao Paulo Costta, mas em verdade foi um banho de saudade.