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O dia em que conheci Tonia Carrero

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 10/03/2018 Colunista: Carlos Pinto

O dia em que conheci Tonia Carrero

 “Nunca se deve engatinhar

quando se tem o impulso

de voar.”

(Helen Keller)

 

Corria o ano de 1970 e tive que ir ao Rio de Janeiro, para uma reunião com o Embaixador Paschoal Carlos Magno. Tratava-se de mais uma preparação para a realização de um novo Festival Nacional de Teatro de Estudantes. E desta vez ele seria realizado na Aldeia de Arcozelo, em Paty do Alferes, região serrana do Rio de Janeiro. Chegando em Santa Tereza, no casarão onde residia o Embaixador, e após resolver as questões pendentes, Paschoal me convidou para ir com ele até o apartamento de Tonia Carrero.

Ela morava perto da Lagoa Rodrigo de Freitas, e lá chegando, fomos recebidos por Tonia e seu marido. Na oportunidade Paschoal solicitou a ela a colaboração necessária com relação à realização do evento em Arcozelo. Além de admirar a figura de Tonia, também verifiquei o quanto ela era interessada nas realizações teatrais, e a forma como nos tratou, principalmente ao Paschoal.

Em 1968, em outro Festival Nacional de Teatro de Estudantes, realizado no Rio de Janeiro, nós do Teatro Estudantil Vicente de Carvalho estivemos presentes, com o espetáculo “Os Grandes Momentos de Gil Vicente”. O espetáculo havia sido selecionado em função de ter vencido o V Festival Estadual de Teatro Amador de São Paulo. Nos apresentamos no Teatro Nacional de Comédia, em horário nobre, e na oportunidade, Tonia estava na plateia da nossa apresentação, assim como Paulo Autran, Flávio Rangel, Yan Michalski, (crítico teatral) entre outros profissionais das artes cênicas.

Era voz corrente nos meios teatrais, as desavenças dela com Cacilda Becker, de quem fui secretário, que tinham como motivo a paixão de ambas pelo diretor italiano Adolfo Celli. Essa conturbada relação entre as duas, teve início no TBC – Teatro Brasileiro de Comédia, para onde veio trabalhar. Naquele ano a cena brasileira já ficava ouriçada diante da beleza de Tonia, já então alçada ao estrelato nos palcos brasileiros, ao lado de Cacilda Becker e Glauce Rocha.

Nessa briga pelo amor de Adolfo Celli, levou a melhor e com ele se casou em 1957. Sobre este assunto, em entrevista, Tonia afirmou o seguinte: “Eu e Cacilda fomos inimigas apaixonadas. Algum tempo antes dela falecer eu disse a ela que só tinha querido o Celli, por causa dela. Dei de presente a ela porque sabia que eu a fizera sofrer. Não era exatamente aquilo não, mas eu queria ser a atriz que Cacilda era. Eu queria o lugar dela.”

Em sua carreira experimentou vários sucessos, tanto no teatro, como no cinema e na televisão. Mas o grande salto para o estrelato verdadeiro, veio com a montagem de “Navalha na Carne”, de Plinio Marcos, com direção de Fauzi Arap. Despojada de seus atributos físicos, partiu para a construção do personagem da prostituta Neusa Suely, que lhe rendeu os maiores elogios da crítica e do público.

Ainda sobre Cacilda, afirmaria em uma entrevista que “Cacilda tinha dez estrelas na testa. Morreu dizendo uma frase de Beckett em “Esperando Godot”. Quando o mendigo pergunta: O que é que está fazendo? Cacilda deitada, respondia: Estou olhando para a lua, que deve estar cansada de olhar para a terra e ver gente como nós.” Tonia deixa saudades em seu público não apenas pela beleza, mas acima de tudo pelo talento, e por ter sido uma ativista pela volta da democracia.

 

*Tonia Carrero morreu aos 95 anos, no último dia 03 (03/03?2018)