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A invasão: a distância entre Dias Gomes e Boulos

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 03/05/2018 Colunista: Carlos Pinto

A invasão: a distância entre Dias Gomes e Boulos

 

“Se os brasileiros desonestos

voassem, nós nunca veríamos

o sol.”

(DA)

 

Há uma terrível coincidência entre a tragédia ocorrida em São Paulo, neste primeiro de maio, e o texto de Dias Gomes, intitulado “A Invasão”. Como um profeta, o dramaturgo constrói uma obra baseada em fato verídico, ocorrido no inicio dos anos sessenta, no Rio de Janeiro, em uma construção cuja finalidade era abrigar um hospital. Escrita em 1960, a obra tem por tema os proletários urbanos, sem qualquer possibilidade de se tornarem protagonistas. Em função dos repetidos desabamentos que ocorriam nos morros do Rio de Janeiro, durante as chuvas de verão. Sendo um texto bastante polêmico, foi proibido pelo AI-5 em 1968.

Essa construção invadida pelas vitimas dos referidos desabamentos, era ainda um esqueleto abandonado onde toda a ação transcorre, que ficava ao lado do Estádio do Maracanã, que em função dessa invasão ficou conhecido como a Favela do Esqueleto. Hoje, decorridos mais de cinquenta anos, o prédio foi terminado e nele funcionam alguns cursos da Universidade Estadual do Rio.

Mas lá, como no caso do prédio do centro de São Paulo, existiam os aproveitadores da miséria humana, que obrigam os invasores a um sistema de opressão, entre as promessas de políticos inescrupulosos e a exploração de negociantes das redondezas. Igualados pela miséria em que sobrevivem e pela violência que sofrem por parte dos apadrinhados desses políticos malandros, não conseguem nem vislumbrar um futuro dramático. O texto em verdade é uma radiografia que solicita respostas de quem observa e não, de quem vivencia tamanho sofrimento.

Em 1968, muito embora soubesse da interdição que o texto sofria, resolvi junto com meus companheiros do Teatro Estudantil Vicente de Carvalho, enfrentar tal proibição e montar essa obra de Dias Gomes. Com direção de Afonso Gentil, músicas de Murilo Alvarenga e cenografia de José de Anchieta, colocamos o texto no palco. Terminada a montagem recebemos da censura a proibição total do espetáculo, mas mesmo assim, fizemos uma apresentação para amigos e familiares dos componentes do elenco. As seis da manhã do dia seguinte, fui “convidado” a comparecer a PF para me explicar.

O que por certo não vai ocorrer com os membros dirigentes desses movimentos ditos sociais, que tratam apenas de viver muito bem, com seus carrões e belas vivendas, cobrando dos miseráveis as mensalidades pelo espaço que ocupam nessas invasões. Exatamente o que fazia o personagem Mané Gorila, na Favela do Esqueleto, apadrinhado que era de um deputado a quem servia como cabo eleitoral. Quando o personagem Tonho, cansado de ser explorado, resolve voltar para sua terra natal, a Paraíba, é impedido pelo Mané Gorila que quer receber o pagamento de aluguéis atrasados. Se opondo a isso, Tonho termina por matar o explorador.

A atualidade desta obra de Dias Gomes, é a realidade de hoje, onde os Manés Gorilas têm uma equipe de gorilinhas que servem a aproveitadores do tipo do Boulos e do Stédile. Quando a coisa degringola, como no caso do prédio da Pauliceia desvairada, eles nunca estão presentes para ajudar esses miseráveis que exploram no dia a dia. Nem eles nem os políticos corruptos a quem servem, em troca da boa vida que levam e ostentam. Infelizmente, este é mais um caso em que a vida imita a arte. Resta saber até quando, vamos aguentar os Gorilas modernos, e determinar o fim da atualidade dessa maravilhosa obra de Dias Gomes.