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O legado de Névio Dias

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 21/12/2010 Colunista: Carlos Pinto

“Até o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver... Agora vou dormir para ser mais forte amanhã.” - (Mayakovski)

Conheci Névio Dias no inicio da segunda metade dos anos sessenta. O país havia mergulhado no processo da revolução de 64, e a censura draconiana instalada, mutilava o processo de produção cultural no Brasil. Neste cenário nos conhecemos em uma reunião da Comissão Estadual de Teatro, para discutir o projeto de criação das Federações de Teatro Amador, uma idéia de João Rios, que Nagib Elchmer, então Presidente da CET, estava implementando.

Eu havia acabado de ser eleito Presidente da Federação Santista e Névio, era o Presidente da FETAC. Junto com Hamilton Saraiva e outros companheiros do interior paulista, começamos a discutir a idéia de criar uma Confederação Estadual, que congregasse as dezenove Federações já criadas. Névio era um dos grandes entusiastas dessa idéia, porque entendeu que era uma forma de fortalecer o movimento teatral amador do Estado.

Em 1967, durante a fase final do V Festival Estadual de Teatro Amador realizada em Presidente Prudente, aproveitamos dez dias de convivência para formalizar a proposta e criar a comissão provisória para preparar a fundação da COTAESP – Confederação de Teatro Amador do Estado de São Paulo.

Névio Dias foi eleito Presidente dessa comissão, com a minha companhia e a de Hamilton Saraiva, que seriam os responsáveis pela formatação dos estatutos, ata de eleição e demais documentos necessários a formalização de uma entidade cultural.

Em menos de um mês marcamos a data oficial de fundação da entidade, o que ocorreu a 5 de novembro de 1967, na sede da Associação da Guarda Civil de São Paulo, na Rua Helvetia, na Capital. E assim criamos uma das mais produtivas entidades culturais do país, que durante mais de dez anos enfrentou a censura e o regime, e estabeleceu um dos mais completos movimentos teatrais do país.

Névio, natural de São Caetano, adotou São Carlos a partir de 1953. Muitos de nós, apesar de residir em outros municípios, também adotamos São Carlos como nossa segunda casa, em função da decisão de sediar a COTAESP nessa cidade. Proposta do Névio prontamente aceita por todos nós.

Aderimos à luta de Névio pelo término da construção do Teatro Municipal, uma luta iniciada pelos amadores da cidade, apadrinhados pelo Embaixador Paschoal Carlos Magno. Nessa luta Névio conseguiu unir os amadores sancarlenses através da FETAC, uma batalha vitoriosa que levou Cacilda Becker e Walmor Chagas a inaugurarem a nova casa de espetáculos do interior.

Foram tantas as lutas e os caminhos que palmilhamos juntos em várias cidades através da COTAESP, que proporcionaram a construção de várias casas de espetáculos: Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Sertãozinho, Franca, Santos, Ituverava, Batatais, entre outras.

O companheiro Névio Dias estava sempre à frente de qualquer movimentação em favor da classe teatral amadora. Com o advento da redemocratização, por decisão unânime, resolvemos nos afastar da COTAESP para cuidar de nossas vidas.

Foi um erro, pois nossos sucessores dilapidaram a entidade, destruíram seu acervo e mergulharam o movimento teatral amador de São Paulo nas trevas de uma noite sem fim.

Não dá para resumir em poucas linhas, tudo aquilo que Névio participou e ajudou a construir.

Quando voltamos a nos reunir, anos depois (1997), ao fundar o ICACESP – Instituto Cultural de Artes Cênicas do Estado de São Paulo, lá estava Névio Dias a participar com sua contribuição.

Sua obra sobre o teatro amador de São Carlos, juntamente com o enfoque sobre a vida de Genésio Arruda, foi publicada pela Editora ICACESP.

Estava na fase final, junto com Getulio Alho, de uma nova publicação sobre o cinema do interior paulista, que certamente iremos editar, mesmo que seja como obra inacabada, a efeito de “Julio Cesar”, de Brecht.

Acima do camarada de lutas que se foi, perdemos um amigo. Talvez agora possamos com a palavra tão frágil, erguer um monumento ou transmitir um pouco do mundo interior daquele que foi mais que um homem, um filho, um pai, um companheiro, porque foi AMIGO.

É a única palavra, e todos aqueles que como eu, com ele compartilharam, sabem o sentido exato desta palavra.

O sentido que transcende aos seus limites estreitos, acanhados, físicos, para se projetar e transformar em sentimentos, essa coisa difusa, informe, confusa e nebulosa que se alimenta do silêncio, para florescer no poema, na sinfonia, no amor e na paixão.

Em nome dos demais companheiros, homenageio hoje, ao amigo. Aquele que no plano da vida total praticou seu último ato: o silêncio.

Névio Dias faleceu em 29 de novembro passado