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Garcia Lorca: uma vítima do Franquismo

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 27/05/2018 Colunista: Carlos Pinto

 


“Há pessoas que transformam

o sol numa simples mancha

amarela, mas há também aquelas

que fazem de uma simples mancha

amarela, o próprio sol.”

(Pablo Picasso)

 

O próximo dia 5 de junho marca os 120 anos de nascimento de um dos maiores poetas do século XX, e um dos grandes nomes da literatura espanhola: Federico Garcia Lorca. Nascido em Fuente Vaqueros, Granada, em 1898, Lorca foi também um dos grandes dramaturgos da literatura dramática mundial, nos brindando com obras como “A Casa de Bernarda Alba”, “Fuente Ovejuna”, “Bodas de Sangue” e “Yerma”, entre outras que se seguiram ao seu primeiro texto chamado “O Maleficio da Mariposa”, com a qual estreou em 1920.

Mudou-se para Madri em 1919, cidade onde viveu até 1928, que lhe proporcionou travar amizade com Salvador Dali e Pedro Salinas. Sua obra canta em versos com grande sensibilidade a alma popular da região de Andaluzia. Sua poesia terminou por identificar-se com as minorias formadas por mouros, judeus, negros e ciganos, que na época eram o alvo das perseguições em sua região. Sua condição de homossexual o levou a sentir as mesmas discriminações, o que não o impediu de continuas manifestações e aversão aos fascistas e aos militares franquistas.

Alguns de seus poemas, escritos em Nova York, onde viveu durante nove meses, só foram publicados após sua morte, ocorrida em 18 de agosto de 1936. Ao retornar a Espanha, cria a companhia La Barca, com a qual percorreu várias aldeias em todo o país, através da qual encenava obras de autores famosos, tais como Cervantes e Lope de Veja. Foi em 1933 que escreveu “Bodas de Sangue”, cujo tema parte de uma estória verídica sobre as questões de ciúme e morte entre os camponeses de Andaluzia. Esse texto vem abrir uma nova fase no teatro moderno da época.

Por essa época já era o mais famoso poeta e dramaturgo espanhol, e no auge de sua produção cultural terminou sendo fuzilado em Granada, por militantes franquistas, ao início da Guerra Civil Espanhola. E que motivos tiveram esses militantes para cometer tamanha barbaridade? Sempre houve algo de estranho, envolto em diversas obscuridades, entre telefonemas e discussões várias, onde até falangistas se colocaram em defesa de Lorca.  De nada adiantou diante da irracionalidade dos militantes fascistas, que terminaram por fuzilar Lorca em uma clara manhã de Andaluzia.

Ele havia sido aconselhado a não sair de Madri, e retornar a Granada, como era seu intuito. De nada valeram estes conselhos de seus amigos madrilenos, aos quais dizia que todos o conheciam e nada de mal lhe aconteceria.  Prisões decretadas e seu nome sendo mencionado, acatou o conselho de familiares e se refugiou na casa dos Rosales, amigos da família, que, no entanto, tinham membros participantes da temida Falange de Franco. Entre os membros da família Rosales havia um poeta adolescente: Luis Rosales, que mais adiante foi autor de “La Casa Encendida”, considerada uma obra prima da literatura espanhola.  

Preso, Lorca recebeu a visita de Luis Rosales, que com outros amigos tentavam tira-lo da prisão. Eis que na manhã seguinte veio a noticia de seu fuzilamento por um pelotão entre os quais estavam membros das maiores famílias proprietárias da Veja de Granada. Como Vargas, saiu da vida para entrar na história, este poeta andaluz é reverenciado até hoje como um dos maiores nomes da poesia e da literatura teatral em todos os tempos. Saudemos Garcia Lorca, vítima da insensatez e da insensibilidade humanas, as mesmas características que hoje observamos em nosso país.