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A Bibi que eu conheci

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 24/02/2019 Colunista: Carlos Pinto

A Bibi que eu conheci

 “A grandeza não consiste

em receber honras, mas

em merecê-las.”

(Aristóteles)

 

         No começo dos anos 80, por indicação do meu amigo Derosse José de Oliveira, fui convidado pelo Prefeito Jayme Daige, de Guarujá, para assumir a direção do Teatro Procópio Ferreira, então em fase de término de suas obras. Neste ano foi realizado o primeiro Festival de Verão de Guarujá, que aconteceu por mais três anos, no qual coordenei vários eventos. Foi logo após esse período que conheci Bibi Ferreira.

Fui procurado pelo Max, produtor do espetáculo “Gota D´Agua”, que pretendia realizar uma temporada em Guarujá, pois a Bibi queria conhecer o teatro que levava o nome de seu pai. Acertadas as datas, dias após recebi um telefonema da Bibi, através do qual queria saber onde ia ficar hospedada e uma serie de recomendações, tais como, que não gostaria de ser acordada antes das treze horas, e que o apartamento deveria ter cortinas pretas.

Ela ficou hospedada no Guarujá Inn Hotel, onde recebeu o tratamento de qualidade que aquele hotel sempre patrocinava aos seus hospedes, com o comando do Ricardo, proprietário e amigo das artes. Foram quatro apresentações de “Gota D´Água”, com casas lotadas, e talvez um dos maiores sucessos apresentados em Guarujá. Foram dias em que conheci uma Bibi, diferente daquilo que dela comentavam. Uma pessoa afável, profissional, e que quando as pessoas agiam exatamente como ela sugeria, não se tinham problemas e os espetáculos fluíam na maior normalidade. Sabia tudo de teatro, canto e o que mais fosse.

Foram dias em que aprendi muito sobre a arte de fazer teatro, de entender que uma casa de espetáculos é como um santuário, onde a vida de personagens desfila pelo corpo e palavra dos atores e atrizes. Falamos sobre Procópio, seu pai, que havia realizado uma temporada em Santos, com “As mãos de Eurídice”, no Teatro Íntimo de Comédia. Para quem não lembra, o TIC era de propriedade de Paulo Lara e Greghi Filho, e estava instalado em uma das dependências do antigo prédio do Parque Balneário Hotel. Era um teatro de 50 lugares, onde muitos espetáculos foram realizados.

Bibi me contou que estava esperando a confirmação de uma temporada de “Gota D´Água”, em Portugal, mais especificamente em Lisboa, mas que estava com um problema caso a temporada se confirmasse. O ator que fazia o “Jason” não poderia viajar, e foi aí que ela me convidou para assumir o papel. Como a temporada não se confirmou, perdi a oportunidade de trabalhar com ela no palco.

O falecimento de Bibi Ferreira, cria uma enorme lacuna na ribalta nacional. Quantos anos levaremos para ter uma atriz com seu talento, com sua dedicação ao teatro, uma atriz completa, já que na cena brasileira atual, não encontramos ninguém que possa se igualar a ela. É certo que temos grandes atrizes, com muito talento, mas que não possuem todas as qualidades que ela concentrava. Ficamos mais pobres culturalmente, ficando apenas as recordações dos ensaios de “Gota D´Água” que assisti no Teatro São Pedro, além dos espetáculos onde ela se superava a cada apresentação. Assim foi com “Piaff” e com “Amália”.

(Foto/Divulgação)