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Os Anchietas e o Teatro Brasileiro

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 01/06/2019 Colunista: Carlos Pinto

  “A grandeza não consiste em

receber honras, mas, em

merece-las.”

(Aristóteles)

 

Atribui-se ao jesuíta José de Anchieta, a realização do primeiro espetáculo teatral em terras brasileiras, espetáculo esse protagonizado por índios das tribos do litoral paulista. Nascido em San Cristóbal de La Laguna, nas Ilhas Canárias, Espanha, estudou em Coimbra, e foi realmente o primeiro dramaturgo, gramático e poeta nascido nas Ilhas Canárias. Foi também autor da primeira gramática da língua tupi e seguramente um dos primeiros criadores da literatura brasileira, através de inúmeras peças teatrais e poemas de teor religioso. É também o patrono da cadeira número um da Academia Brasileira de Música.

Quis o destino que quinhentos anos após, um outro José de Anchieta, nascido em Caruaru, Pernambuco, viria a se tornar um dos maiores cenógrafos e figurinistas do teatro brasileiro. Sua carreira nas artes cênicas se inicia em final dos anos sessenta, e tem muito a ver com a cidade de Santos. Mais precisamente em 1968, o Teatro Estudantil Vicente de Carvalho, oriundo dos alunos do Colégio Canadá, que no ano anterior havia vencido o V Festival Estadual de Teatro Amador, resolve fazer a montagem de um texto de Dias Gomes, intitulado “A Invasão”.

Sabíamos dos problemas que seriam enfrentados com a censura para liberação desse texto, mas mesmo assim encaramos a situação e começamos a produção do espetáculo. Contratamos o diretor Afonso Gentil, e como a ideia era montar um musical, o Gentil nos trouxe o Murilo Alvarenga e o Anchieta, para compor as músicas e realizar cenários e figurinos, respectivamente. Ensaiávamos no Parque Infantil Leonor Mendes de Barros, situado no bairro do Gonzaga, por deferência de sua diretora na época.

O elenco era composto em torno de vinte atores e atrizes, que sob a batuta de Afonso Gentil, deram vida aos personagens de Dias Gomes, cuja obra era baseada em fatos reais ocorridos no Rio de Janeiro. Tratava-se de uma invasão de sem tetos, em uma construção de um hospital ao lado do Maracanã, que estava abandonada. O Boulos da época, era conhecido por Mané Gorila, por sinal, o personagem que me coube nessa montagem. A abertura desse musical era uma página em homenagem ao Salão do Automóvel, seguramente um dos primeiros realizados no país. A música era uma sátira as ditas empresas automobilísticas “brasileiras”, e a encenação corria em uma crítica ao sistema vigente no país.

Como era esperado, a censura draconiana da época proibiu a encenação, o texto, as músicas e o que mais que fosse. Com o espetáculo pronto, resolvemos fazer uma apresentação ao arrepio da proibição, tendo como convidados os parentes dos membros do elenco e alguns amigos do grupo. O local lotou, e na madrugada seguinte fui conduzido à Polícia Federal para uma conversa com o delegado. Foi a primeira de várias.

Não encontrei na biografia de Jose de Anchieta, esta passagem, este trabalho dele em Santos, que por certo marcou em sua carreira. Nos encontramos esporadicamente em algum espetáculo na Capital, ou em reuniões da classe teatral, e o tempo se encarregou de criar uma distância entre nós. Ao tomar conhecimento do seu falecimento, hoje consagrado como homem de teatro, voltei no tempo para relembrar esse episódio, que por certo não consta de nenhuma publicação sobre a história do teatro brasileiro, mormente, do teatro amador paulista.

Na sequência montamos “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues, e arrumamos uma nova briga com a censura, só que desta vez levamos a melhor. É interessante como a história se repete. O Anchieta jesuíta, fez teatro em nossas praias, e o Anchieta cenógrafo, veio repeti-lo centenas de anos depois. A vida tem dessas coincidências, e o palco pode situar-se em qualquer canto das cidades. O teatro não precisa de paredes pra se concretizar. Precisa apenas de talento.