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Santos de outros carnavais

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 28/01/2020 Colunista: Carlos Pinto

Santos de outros carnavais

 “Aprendi com as primaveras,

a me deixar cortar para poder

voltar inteira.”

(Cecilia Meireles)

 

            Nasci na rua Cristiano Otoni, coração do Bairro Chinês, ao lado do Morro do Pacheco onde me criei, na casa dos meus avós. Como a maioria dos nascidos por ali nos anos trinta, sou descendente de portugueses e espanhóis. Portugueses vindos de Vizeu e Aveiro, e espanhóis de Andaluzia e País Basco. Nunca conheci nenhum chinês naquele bairro, mas dizem que havia uma pastelaria deles por lá. Ali nasceu boa parte da cidade de Santos, inclusive os primeiros blocos de Carnaval, em um dos quais, os “Babys do Jardim da Infância”, desfilei pela primeira vez na vida.

Nosso bairro deu a Santos, alguns políticos de escol. Roberto e Sergio Bonavides, Odair Gonzalez e o ex-Prefeito Paulo Gomes Barbosa, entre outros. A família do Paulo veio de Minas Gerais, direto para o Morro do Pacheco. O menino Paulo era frequentador da casa de minha sogra e, da casa daquela que viria a ser sua sogra. Todas as famílias se conheciam e tinham um certo irmanamento, o que dificilmente ocorre na Santos de hoje.

Caminhando pela Rua Visconde do Embaré, chegávamos a Praça dos Andradas que era o point de então. Ali ficávamos olhando os macacos, preguiças e saguís, além dos peixes em um regato artificial que percorria boa parte da citada praça. Existiam os fotógrafos “lambe-lambe”, e o Teatro Guarany, onde se realizavam boa parte dos espetáculos teatrais da época. Grandes artistas nacionais e internacionais passaram por aquele palco, que um dia, o fogo transformou em ruinas.

Os desfiles de carnaval aconteciam na atual Rua João Pessoa, que no passado ostentava o nome de Rua do Rosário. Ali, na esquina com a Praça Rui Barbosa, existia o Cine Teatro Paramount. Santos sempre foi uma cidade onde a cultura era privilegiada, e sempre teve várias casas de espetáculos e cinemas. Tinha o Coliseu em pleno funcionamento, e mais tarde o Teatro Júlio Dantas, no Centro Português, que acaba de ser reinaugurado após ampla reforma.

Ali, ao lado do Centro Português, em um antigo casarão, funcionava a Sociedade Cívica Feminina, uma entidade com fortes ligações com o PCB, que era presidida pela sogra do ex Prefeito Silvio Fernandes Lopes. As mulheres da minha família frequentavam essa entidade, cuja grande finalidade era ajudar famílias pobres da cidade. Durante a Revolução de 32, o Teatro Guarany virou quartel de base santista, em apoio aos revoltosos. Nossa cidade sempre foi um celeiro de pensadores e vanguardistas, de artistas de grande talento, e por um tempo foi considerada como a “cidade vermelha”.

Tudo mudou. Já não temos mais cadeiras nas calçadas onde vizinhos conversavam pela noite adentro. O progresso tem seus custos, e a minha cidade tem pago sua parte nos avanços tecnológicos. Mas continua linda e acolhedora. Porto de mar aberto para o mundo, jardins da praia que encantam santistas e visitantes. Jovem e linda completando seus 474 anos de existência, graças a visão de Brás Cubas, e de muitos que trabalharam em favor do seu crescimento.

Perseguida em algumas oportunidades, maltratada por alcaides incompetentes ou de má fé, mas sempre perseguindo seu futuro que sempre será radioso. Enaltecida nos versos de Vicente de Carvalho, ou de Roldão Mendes Rosa, Martins Fontes e Flavio Amoreira, nos livros de Paulo Setúbal, e na obra dramática de Plinio Marcos. Santos, minha terra, meu pedaço de chão do qual nunca me afastei.