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Macaco em loja de cristais

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 27/04/2020 Colunista: Carlos Pinto

 “Realmente vivemos tempos sombrios.

A inocência é loucura. Uma fronte sem

rugas denota insensibilidade. Aquele

que ri ainda não recebeu a terrível notícia.”

(Bertold Brecht)

 

            Este recente episódio que culminou com a defenestração do juiz Sergio Moro, do Ministério da Justiça, serve apenas para ilustrar mais um capítulo de nossa história recente. Ouvi atentamente os pronunciamentos de ambos, e cheguei à conclusão de que estamos diante de um cair de máscaras, principalmente de quem se posicionava como paladino da justiça. Pedir demissão através de pronunciamento para a televisão, sem antes ter enviado sua renuncia ao Presidente, já demonstra uma falta de ética, de caráter e lealdade.

Elencar como motivo, o fato de o Presidente querer trocar o diretor da Policia Federal, em função de querer alguém de sua confiança, é uma prerrogativa legal de quem estiver na Presidência. E aos poucos vamos pinçando aqui e ali, alguns fatos que levaram Bolsonaro a querer a demissão de Aleixo. A insistência de Moro em manter seu indicado, revelou a falta de lealdade do Ministro, o que por si só já demandaria em demiti-lo. Segundo se sabe, desde março que o Bolsonaro estava sendo informado sobre a conduta de ambos, totalmente desleal ao governo.

Ao afirmar em sua saída, que o Presidente queria demitir o Aleixo, porque queria uma pessoa que o informasse sobre o andamento de alguns processos, Moro comete uma gafe de principiante. Diariamente o Gabinete da Presidência recebe informes oriundos das três armas, mais os informes gerados pela ABIN. E foi através deles que deve ter sido informado de que alguma coisa não estava como antes no quartel do Abrantes. Os Ministros palacianos pretendiam cozinhar o Moro em fogo brando, mas Bolsonaro não é de deixar para amanhã o que pode fazer hoje. Estava desde março engolindo em seco.

Quando chamado pelo Presidente, e informado que o Aleixo seria demitido, Moro tentou argumentar, mas foi em vão. Aceitou inclusive um novo diretor na PF desde que fosse de comum acordo. Também não colou. Sentiu que a batata estava assando e resolveu revidar através da sua explanação pela TV, onde se dizia demissionário, atirando farpas para todos os lados, cometendo uma nova gafe. Ainda não tinha comunicado sua saída ao Presidente, coisa que é elementar na vida pública. Faltou ética e decência.

Houve desacertos em ambos os lados neste episódio, principalmente em um momento em que estamos todos enjaulados em nossas casas, para escapar do inimigo comum: o coronavírus. Moro por conduta inadequada ao cargo que ocupava. Bolsonaro pelo pavio curto que ostenta. Com isso estamos diante de uma nova crise política, gerada pela ambição de um, e instinto de caserna do outro. Um instinto onde a lealdade é a maior das virtudes. Temos um novo dirigente na Policia Federal e, segundo se sabe, um novo Ministro da Justiça, cujo nome não declino porque ainda não saiu sua nomeação.

Quantos aos demais protagonistas deste episódio, ainda escondidos sob o manto da falta de coragem, creio que em breve tempo serão identificados. Outro dia escrevi sobre os grandes traidores da história pátria. Será que teremos que incluir mais alguns? Tem um que já anda chorando pelos cantos, porque sabe que mais cedo ou mais tarde vai ter que enfrentar o julgamento pelas patifarias que cometeu, ao longo de sua carreira. Afinal de contas, tem um ditado popular que afirma que, “quem sai aos seus, não degenera.” Enfim, vida que segue e maio se aproxima.