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Belas vozes da nossa MPB

Voltar para listagem de colunas Inserida em: 27/09/2020 Colunista: Carlos Pinto

“Manhã tão bonita manhã

Na vida uma nova canção

Cantando estão teus olhos,

Teu riso tuas mãos.”

(Luis Bonfá e Vinicius de Moraes)

 

Elaborada para fazer parte da trilha sonora do filme “Orfeu no Carnaval”, composta por Vinicius de Moraes e Luis Bonfá, “Manhã de Carnaval”, foi, indiscutivelmente, um dos grandes sucessos de Agostinho dos Santos. Natural de São Paulo, Agostinho foi uma das mais belas vozes do nosso cancioneiro, com uma trajetória fulgurante, teve sua vida ceifada no fatal acidente de avião ocorrido no Aeroporto de Orly, em Paris, em 12 de julho de 1973.

Em sua breve carreira foi crooner de orquestra, tendo trabalhado também nas rádios América e Nacional. Posteriormente foi para o Rio de Janeiro, para cantar ao lado de Ângela Maria e Silvia Teles, em programas da Rádio Mayrink Veiga. Sua estada no Rio, lhe valeu o contrato para o filme “Orfeu no Carnaval”, que teve a direção de Marcel Camus. Além de “Manhã de Carnaval”, também interpretava outra música de Vinicius e Jobim, chamada “A Felicidade”.

Foi um dos participantes do Festival de Bossa Nova, realizado no Carnegie Hall, em Nova York, acompanhado pelo conjunto de Oscar Castro Neves. Entre seus grandes sucessos vamos encontrar duas composições de Dolores Duran: “Fim de Caso” e “A Noite do Meu Bem”. Além de “Balada Triste”, uma composição de Dalton Vogeler, traduzida para o português por Esdras da Silva. O acidente de que foi vítima, ocorreu durante sua turnê pela Europa.

É bom lembrar também, da magistral voz de Johnny Alf, que para muitos é o criador da bossa nova. Eu o conheci aqui no Boqueirão, já que ele frequentava um grupo de músicos santistas, que se reunia ali no Edifício São Domingos. Entre eles o Roberto Sion, e também o Toquinho, que todas as vezes que vinha a Santos, frequentava o São Domingos. Diz a lenda que a canção “Eu e a Brisa”, foi composta pelo Johnny ali no Edifício São Domingos. Johnny Alf era um excepcional compositor e pianista e em razão disso e de sua voz, foi contratado por Dick Farney e Nora Ney, para a Cantina do Cesar, cujo dono era o radialista Cesar de Alencar, iniciando assim sua carreira profissional.

Tocou em várias boates cariocas e gravou o seu primeiro 78rpm. Em 1955 veio para São Paulo, atuando na boate Baiuca e no bar Michel, ao lado de Paulinho Nogueira, Sabá e Luis Chaves. Volta ao Rio de Janeiro em 1962, onde trabalha ao lado do Tamba Trio, de Sergio Mendes, Luis Carlos Vinhas e Sylvia Teles. Três anos depois realiza uma turnê pelo interior de São Paulo, e torna-se professor de música do Conservatório Meireles. Participa do III Festival de Música Popular Brasileira, em 1967, patrocinado pela TV Record. Sua composição “Eu e a Brisa”, interpretada por Márcia, termina por ser desclassificada, porém, tornou-se um dos clássicos do seu repertório.

Sem parentes, viveu seus últimos tempos em um asilo em Santo André. Sua última apresentação foi em agosto de 2009, no Teatro do SESI, em São Paulo, ao lado de Alaíde Costa. Faleceu com 80 anos, em Santo André, vítima de um câncer de próstata. De acordo com Ruy Castro, Johnny Alf, foi o verdadeiro pai da bossa nova. Para Tom Jobim, Alf era simplesmente genial. Tive oportunidade de vê-lo algumas vezes, durante o tempo em que trabalhou no João Sebastião Bar, ali pelos lados da Consolação.

Deixei por último, um amigo chamado Almir Ribeiro. Natural de São João da Boa Vista, Almir era dono de uma poderosa voz, que apesar de sua curta carreira, lhe valeu dois prêmios Roquete Pinto. Foi artista exclusivo do programa Spot Light, da TV Tupi, e também teve participação em dois filmes. Um deles, “Absolutamente Certo”, com direção de Anselmo Duarte, no qual interpretou “Onde Estou?”, de Hervê Cordovil e Vicente Leporace. Uma premonição. A gravação foi feita na Boate Cave, onde Almir se apresentava. Ao assisti-lo, Vinicius de Moraes teceu os maiores elogios, “uma voz privilegiada e possuiu um dos mais ricos timbres que já me foi dado ouvir.”

Recebeu convite para atuar na TV Tupi, do Rio de Janeiro, e ao vê-lo, Carlos Machado o convidou para fazer uma temporada no Casino San Raphael, em Punta Del Este, no Uruguai. Morreu afogado em uma praia da cidade uruguaia, em 18 de fevereiro. Antes disso fez um único show em Santos, na antiga boate do Clube Atlético Santista. Hoje, não temos mais vozes privilegiadas como as de Almir, ou Johnny ou Agostinho. A mídia de hoje nos empurra goela abaixo, os grunhidos de Pablo Vittar, e outros da mesma laia. A decadência da MPB é um fato.

CARLOS PINTO

Jornalista

(09.08.20)