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Impeachment... nada a comemorar

Voltar para listagem de notícias Inserida em: 2016-05-15 -01:26

Impeachment... nada a comemorar

Entristecida esperei pelo impeachment. Não que o impedimento fosse salvar o País, mas pelo menos o direito de exercer e viver a democracia, porque observando aqueles que entendo traidores e traídos, consigo apenas dar voz ao sentimento de frustração ... nada a comemorar.

Senti o coração aliviado quando às 6h30 da manhã do último dia 12, após 20h37 minutos de sessão, o Senado, por 55 votos a 22, determinou o afastamento temporário (por até 180 dias) da então presidente Dilma Rousseff, do PT, do comando do País, não esquecendo que o processo pode acabar antes de seis meses.

O sentimento foi o mesmo que já havia sentido às 23h08, de 17 de abril, quando o deputado Bruno Araujo (PSDB-PE) ao votar SIM, completou os 342 votos necessários para que a Câmara dos Deputados autorizasse o prosseguimento no Senado do processo de impeachment contra a presidente petista.

Em ambos os momentos, posso afirmar que aliviado sim, ficou meu coração, mas muito triste e envergonhado, afinal mesmo sendo um músculo forte e resistente, ele está cansado de tanta hipocrisia, roubalheira, mentira, traição.

Fiquei então imaginando o Brasil, ser vivo, coração pulsando como o meu, naquele exato momento em que a então segunda maior representante do PT (o primeiro, claro, é o ex-presidente Lula que com o impeachment de sua pupila, amarga derrota fragorosa, nunca dantes vista na história deste País) recebeu o comunicado de seu afastamento. Oh derrota...

Com certeza o Brasil, caso seu coração estivesse pulsando como imaginei, primeiro daria um pulo, soltaria a respiração e aliviado diria ou simplesmente pensaria: “finalmente essa quadrilha vai parar de me explorar, de me adoecer, de me emburrecer, de me tirar direitos, de me chamar de idiota, isso, aquilo e aquilo outro (tudo de ruim, naturalmente, afinal é isso que temos vivido na última década, um marchar em direção à derrocada da democracia em prol de uma tentativa de perpetuação no poder)”.

Passado o momento de satisfatória perplexidade, esse mesmo coração iria se sentir palpitante diante da expectativa de novos rumos que seu invólucro, o Brasil pode tomar. Afinal, o até então vice-presidente, Michel Temer (PMDB), assume o comando. Interinamente caso a presidente afastada seja considerada inocente no julgamento da autorização de créditos orçamentários e do uso de pedaladas fiscais, e até o fim de 2018, se for considerada culpada.

Pois bem, não creio que o coração desse Brasil que quer mudanças, dignidade, justiça, fim da miséria com trabalho e não com arranjos como as chamadas bolsas ... que da forma que se apresentam são ações incentivadoras do aumento da natalidade desenfreada visando apenas ‘botar filho no mundo’ para aumentar a somatória do benefício dado pelo Governo à custa dos escorchantes impostos pagos pelos trabalhadores (patrões e empregados) que não gozam do convívio com o poder emanado por esse desgoverno, se sinta apaziguado.

Nem o coração do Brasil, nem o meu, estão em paz porque sabem que essas ações vão continuar, pois deixaram claro ao longo do governo petista que surtem o efeito pretendido nas urnas, seja por parte de quem se aprimorou na troca de dentaduras ou óculos pelo precioso voto, ou porque quem acompanhou esse aprimoramento (trocar dentadura por um valor fixo mensal a custo do suor do trabalho daqueles escravizados pelas taxas).

Pelo que já vivi, pelos sapos que já engoli, pela vergonha na cara que já senti diante de tanta safadeza praticada em nome do povo brasileiro, me recusei a comemorar o processo de impeachment contra a Dilma. Não que ela e sua corriola que praticaram ao bel prazer e até então impunes (a grande maioria), maracutaias, pedaladas, crimes, improbidade administrativa e outras traições com os brasileiros, etc...etc..., não mereçam ser defenestrados do cenário político nacional, quiçá de outros palcos brasileiros.

Merecem, junto com uma enormidade de outros que estão na política apenas para se locupletarem, o repúdio e que os brasileiros lhes virem as costas, mas o impeachment, ainda que seja parte do processo democrático, para mim, soa como o fracasso de uma Nação que não sabe escolher seu timoneiro; soa como temer um País sem governo; soa como o resultado de uma rifa com duas prendas, mas apenas uma delas a escolher.

O novo presidente, mesmo que por enquanto, interino, está posto e quer queira ou não, uma parcela dos brasileiros, eleito pelo povo sim, afinal Michel Temer (PMDB) foi eleito vice-presidente na chapa da então candidata Dilma Rousseff (PT) e até que se mude o processo eleitoral, o vice-presidente, a reboque ou não, tem também para si os votos destinados a presidente afastada. Por isso parcela do povo brasileiro que não aceita Temer, aceita que dói menos e se quer fazer alguma coisa para ajudar o Brasil a consolidar a sua Democracia, una-se a outra parcela dos brasileiros cujo coração bate tal qual o do Brasil que citei acima.

Acordai brasileiros que verdadeiramente trabalham por uma vida e uma Pátria dignas, porque o momento mais frágil de uma democracia é quando esta atinge sua maioridade, afinal aqueles que lutaram por ela tiveram a oportunidade de conhecer o poder e puderam, das duas, uma: usá-lo para transformar em benefício de todos o aprendizado da longa caminhada pelo patamar da liberdade ou usá-lo em benefício próprio e de seu compadrio fazendo o caminho de volta à escuridão do domínio do poder pelo poder sob o manto da maquiagem, que de tão carregada, racha em várias frentes, deixando a nu sua verdadeira face.

Esta é a segunda vez que acompanhamos o impeachment de um presidente da República do Brasil. Em 1992, o então presidente Fernando Collor de Mello, ao sentir que seria condenado pelo Senado por denúncia de corrupção, renunciou antes de ser julgado. Apesar da renúncia teve seus direitos políticos cassados por oito anos. Em 2007 voltou ao cenário político se elegendo senador por Alagoas, função que ocupa até hoje. Em 2014, o Supremo Tribunal Federal o inocentou das acusações.

Lembrar do impeachment do Collor foi apenas para não esquecer que aquele que tem o poder do voto tem também memória curta ou pior, a síndrome da lavagem cerebral ou ainda, a necessidade física e financeira maiores que o ideal de um Brasil sério, reconhecido por suas riquezas e potencial e principalmente pelo caráter de seu povo.

O Brasil em momento algum mereceu ou merece passar pelo vexame de ser rotulado de escória, de refúgio de quadrilheiros, mas quando vemos progredir as associações de bandidos de toda sorte, de traficantes, sequestradores a vendilhões de nossa dignidade, tremei corações. Mas não deixei que nossas vergonhas, nossos temores, atrapalhem a lição de cidadania, de aprendizado de democracia que dentre tantas ações, nos dá o direito de tirar do poder aquele que mente e que leva o País à bancarrota para se perpetuar no poder.

Não estou comemorando esse momento brasileiro, mas acreditando na mudança para melhor.

 

Noemi Francesca de Macedo

Editora do Jornal Espaço Aberto

(Fotos: Divulgação)